Sexo, Mentiras e Videotape

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O poder da retrospectiva é uma ferramente interessante para quem se importa ou involuntariamente acaba refletindo sobre o cinema e os caminhos que a linguagem acaba sempre percorrendo para tentar se reinventar. Ver hoje pela primeira vez (em plena globalização, no ano de 2016) o debute de Steven Soderbergh para o cinema é interessante se colocarmos em panorama o contexto que ele estava inserido no ano de seu lançamento, em 1989. O cinema independente americano acabava de perder seu maior expoente, John Cassavetes, que por si só já poderia ser considerado o fim de um ciclo de rompimentos de barreiras do ‘fazer cinema’ em Hollywood que acontecia desde 1959, quando Cassavetes lançou seu primeiro longa e foi responsável pelo período mais frutífero do cinema independente americano. O ultimo grande filme de Cassavetes, Amantes, foi lançado 5 anos antes, em 1984, e Sexo, Mentiras e Videotapes ganhar a palma de ouro em Cannes no ano da morte do pai do cinema independente americano pode simbolizar a passagem de bastão para que Soderbergh pegasse as rédias do movimento e desse um rumo para ele. Infelizmente não foi isso que aconteceu e logo nas produções posteriores Soderbergh cambaleou para as grandes produções e abandonou o cinema independente que o gerou. Agora, desacreditado do cinema, se voltou para as produções televisivas e alimenta a alcunha de “ex-cineasta”. Enquanto o movimento independente americano se manteve vivo durante todos esses anos – mesmo que sempre beirando ao ostracismo – em nomes como Jim Jarmusch ou em pequenos movimentos jovens como o Mumblecore, oriundo do começo do novo milênio, responsável por nomes que até hoje mostram que o cinema independente sempre vai existir enquanto pessoais quiserem dizer algo significativo sem que seja preciso vender a alma.

Pontypool, de Bruce McDonald

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Está comprovado que a palavra Digital é a mais complexa que existe. Tão incompreensível na mesma proporção que é completa. Já olharam ela no dicionário? Até quando ela foge do seu conceito literário e tenta se traduzir em imagens sua compreensão segue sem sentido aparente. Ela carrega o futuro dentro de sua sintaxe. É possível ver o que nos reserva quando ela é realmente compreendida. Uma nova era toda dentro de apenas sete letras. Uma máquina binária de perfeição orquestral. Essa palavra precisa ser dita e todos possam compreender que no futuro só existirá os números.

(Última gravação do pesquisador linguista José da Silva antes de ser encontrado morto em circunstâncias misteriosas)

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

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Reza a lenda que Dead Souls era a música escolhida para iniciar os shows do Joy Division, sendo assim possível – dentro da sua introdução de quase dois minutos – que Ian Curtis sentisse qual era o clima que pairava e com isso entregasse uma experiência que beirava ao divino a todos que estavam presentes. Aquarius se inicia em uma tela preta com o barulho do mar e, até que a primeira cena do filme realmente aconteça, a mise-en-scene de Kleber está ali a arquitetar um experimento preciso para todos aqueles que compartilham o ambiente escuro do cinema.

Mesmo sem a áurea depressiva que Ian Curtis carregava em sua persona, Sonia Braga surge sem aviso prévio – assim como a voz do vocalista britânico na música. Ela é precisa, intensa, avassaladora. Uma verdadeira encarnação do cinema, que quando olha para a tela sabe que está sendo filmada por Kleber e observada por nós. Ela não tem medo de se entregar, de expor suas vísceras na tela. Ela se faz onipresente mesmo estando constantemente em cena.

O show segue e o filme também, e o conforto que o incomodo possui é muito interessante. Ver os conflitos e a forma que eles são filmados é um tanto Cassavetiano. A câmera que sabe onde filmar porque compreende por completo tudo que está acontecendo e todos os sentimentos presentes de onde está inserida. Sabe onde incomodar, onde humilhar, onde admirar o bela assim como o que tende a ser feio.

Até que chega o horror. A realidade que bate a porta e que nem todos são capazes de enfrentar. Existe a negação, a ira, a barganha, a depressão e por fim a aceitação. As fases do luto que podem não ser na exata ordem que se devem acontece, mas que sempre acontecem. Clara pode não ter tido o mesmo destino do Ian Curtis, mas ela também se sentiu incomodada com a crueldade que a rodeava e resolveu, por fim, ser um incômodo.

Se Cassavetes tinha Gena Rowlands, Kleber Mendoça Filho tem Sonia Braga. Ambas são a energia, se perdem e se encontram em cena. São mulheres. Mulheres.

Aquarius é como ouvir um disco do Joy Division. É tudo belo na mesma proporção que o realidade machuca. Mas o que importa no fim é saber que você não será mais o mesmo depois da experiência.

Olhos de Serpente, de Abel Ferrara

Dangerous Game

É de se notar que em meados de Dangerous Game a narrativa se auto-explode quando ela própria se compreende inútil por estar tentando seguir uma linearidade. O que antes era visto em uma ordem cronológica, do filme que está a sendo filmado, agora passa a acompanhar fragmentos de uma história dissonante. O diretor ora se faz onipresente, ora se torna personagem em seu próprio filme. A busca pela compreensão (coisa inútil de se fazer nos filmes extremos do Ferrara) não faz mais sentido. O que se quer aqui é apenas e exclusivamente sentir.

A fita é toda sobre a obsessão de um homem pela sua arte. Ele está tão determinado a ser real que tudo ao seu redor vira uma ficção que se confunde com a existência. As drogas que eram para ser falsas se tornam reais; o álcool que era para ser água vira combustível de uma locomotiva humana de destruição em massa; o sexo gratuito não sabe se é necessário se fazer gráfico ou subjetivo.

Poucos cineastas conseguiram transpor a metalinguagem de forma tão avassaladora para a tela como Ferrara consegue. Se temos em Cassavetes uma verdadeira Tour de Force da decadência de uma mulher em Noite de Estréia – onde Gena Rowlands se confunde até se perder na atriz que interpreta – em Dangerous Game o diretor também se perde, só que numa busca obsessiva por uma verdade que parece não existir.

Seria o amor? Ou apenas um vício? Quando Herzog aparece na tela ele não dá muitas respostas para o que o diretor e nós estamos procurando e/ou tentando entender, apenas a certeza de que estamos trabalhando com obsessão, a matéria-prima do diretor alemão.

Seria essa obsessão pela realidade? Pois no começo somos apresentados a um filme que se transveste de real para que no fim estejamos diante de algo real que está no filme. E tentar reviver toda a trama na memória é tão confuso quanto tentar entender o que se sente. Mesmo as cenas sendo como tinta permanente na mente, onde quase todas são marcantes e lembrantes, nada parece fazer sentido. E tentar explicar o que foi visto sempre soará um ato falho e castratório.

A única coisa que podemos concluir disso tudo é que muitos ousaram em se aventurar em tramas que discutem o ato de fazer filme, mas poucos conseguiram fazer como Ferrara e transformar a metalinguagem como o ato de se fazer filme.

Rua Cloverfield, 10 (ou A Pretensão Cinematográfica)

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A pretensão de ser grande é realmente necessária para os filmes? Será que os filmes precisam desejar se tornarem clássicos? O cinema deve ser visto como uma obra de planejamento a longo prazo?

Essas perguntas surgem na minha cabeça quando vejo comentários sobre Rua Cloverfield, 10 e como eles acabam sendo sobre a mesma questão. As pessoas que defendem o filme de se estragar no fim acabam sendo as mesmas pessoas que se utilizam da justificativa que a fita perdeu a oportunidade ter se tornado um clássico do gênero.

O interessante é que vi esse filme no cinema na época do seu lançamento onde encontrei um amigo na fila e entre conversas sobre a vida acabamos trocando expectativas que estávamos sobre a sessão. Logo na saída encontrei esse mesmo amigo que mesmo demonstrando um semblante de diversão no pós-sessão acusou o filme de ser ruim também por conta do final que destoa.

Essas percepções me fazem refletir se o que importa é a experiência ou o pensamento que surge depois dela. Cresci vendo diversos filmes que hoje se visse sem ter tido qualquer contato anterior poderia achar um engodo. Mas o que permanece na memória  é a diversão que eles me proporcionaram enquanto os assistia.

E essa discussão se torna mais calorosa na minha mente quando penso qual deve ser a intenção de um realizador a realizar um filme. Sei que existem os diretores que se focam na arte em si, na busca que todo diretor tem de encontrar a narrativa perfeita, a sua narrativa. Assim como também sei que existem os diretores que estão focados nas sensações que um filme pode proporcionar, os famosos cineastas do cinema de gênero. Não acredito que ser um cineasta introvertido na questão linguagem (tendo em mente que a palavra introvertido seja no sentido de ser um cinema mais internalizado em suas preocupações com o cinema) faça que seus filmes se tornem automaticamente um clássico no futuro como também não vejo que os cineastas do cinema de gênero precisam estar constantemente em busca de seu suposto lugar ao sol – que seria se tornar clássico.

Não que eu ache Rua Cloverfield, 10 um filme magnífico. Acredito que muitos dos seus defeitos são perceptíveis durante mesmo a projeção. Como também não acredito que ele seja um filme que acaba pequeno. A experiência de assisti-lo não se compara a filmes que sabem o que estão fazendo se tratando de narrativa de cinema de gênero, mas é uma experiência válida, divertida e que se torna gostosa para aqueles que se permitem desligar a mente e se divertir um pouco – ele é um filme digno para isso.

Uma Revisita a O Sexto Sentido

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Ligar a TV e encontrar O Sexto Sentido do começo talvez seja a única forma de revisitar uma obra do M. Night Shyamalan. Não que eu faça parte do vasto grupo de odiadores da obra do diretor, é que seus filmes são tão específicos que acaba sendo impossível conseguir esquecer da trama ou sentir saudade ao ponto de querer rever algumas passagem da fita – coisa essa que me ocorre constantemente com alguns filmes que admiro. No caso do Shyamalan (tirando o maravilhoso Sinais desse balaio), e sendo específico com O Sexto sentido, isso é uma realidade. O Vi quando criança e confesso que ele me marcou muito (depois de Psicose, ele é o “filme do spoiler” oficial). Revi ao longo da minha vida, sempre isso fazendo com que ele fosse caindo no meu conceito. Não que eu ache um filme ruim, vendo-o agora com toda minha bagagem cinéfila consigo reparar deslumbres de uma direção interessante. M. Night Shyamalan é um bom diretor (Sinais e A Visita – seu filme mais recente – são a prova de sua qualidade), o seu problema principal são seus roteiros. Suas narrativas estão presas na sua obsessão de chocar, o que acaba fazendo seus filmes se tornarem obras descartáveis. Pode até surgir uma vontade imediata de uma revisão, mas isso só ocorre para que seja possível captar coisas que só conseguiríamos com informações que recebemos no fim. Em nenhum momento seus filmes impressionam da maneira certa, para que tenhamos vontade de rever e conseguirmos sempre ver outro filme, com outra visão. Seus filmes estão escritos com tinta permanente em quadro branco, por mais que esfregamos eles nunca vão se apagar. E acredito que uma obra imutável aos olhos do telespectador é uma das piores coisas do cinema.

The Invitation, de Karyn Kusama

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Compreender uma narrativa as vezes se torna uma necessidade ‘desnecessária’ em um cinema de gênero que busca sensações intensas e marcantes. Para ser um pouco radical, acredito que o verdadeiro e bom cinema de gênero coloca a compreensão – tão procurada por telespectadores habituados com um cinema mais generalizado – por ultimo numa escala de prioridades.

Desde os primeiros minutos de The Invitation começa-se a perceber que tentar traçar uma linha imaginária para entender seu enredo é um ato fadado ao fracasso. Por quê? Pelo simples motivo que um verdadeiro horror não é aquele que se faz assustar com os famigerados jump scary e sim aquele que nos joga para o meio do incompreensível, nos deixando com medo daquilo que está muito além de nossa compreensão.

Nos minutos finais de O Bebê de Rosemary – aqueles que sua provável loucura está mais latente – o telespectador que se via dividido entre acreditar nela ou em todos ao seu redor acaba que cedendo e aceita um tipo de gravidez psicológica – sim, Polanski nos engravida – e passa a ver tudo pela perspectiva da protagonista.

The Invitation segue o mesmo tipo de terror psicológico que o clássico dirigido por Roman Polanski, só que a única diferença é que Karyn Kusama não cansa de nos pregar (boas) peças, o que ocasiona numa confusão tão atordoante que nos vemos sem escolhas e acabamos por adentrar na mesma bad trip que o protagonista aparenta estar – sempre variando entre alucinações palpáveis e um mal-estar angustiante.

O mais curioso é que acabamos nos tornando masoquistas diante dessa montanha-russa de sentimentos que deveriam nos ser incomodos. Talvez pela relação que conseguimos criar com os personagens ou uma simples curiosidade mórbida de um desfecho, não dar para saber. A unica certeza que se pode ter é da catarse de sensações que o ultimo ato nos proporciona, fazendo com que compreendamos como o cinema de gênero independente merece tanto a nossa atenção.