Colinas de Sangue (Ou O Gênero Perdido)

The_Hills_Run_Red

O gênero cinematográfico que – talvez – mais sofreu com o passar do tempo foi o de terror. A mutação que ele anda sofrendo desde de sua criação é algo que assombra os cineastas que se dedicam a essa linguagem. É difícil assustar, pelo simples fato de ninguém leva o mesmo susto duas vezes. Com isso começou a busca pelo susto perfeito. O gênero de terror se tornou na verdade a área do cinema mais imprevisível de se trabalhar. Onde é preciso ter criatividade e, acima de tudo, coragem para inovar.

Por ser um gênero que cresci vendo, hoje vejo o terror como a linguagem pedida do cinema. Foi se perdendo com o passar dos anos a habilidade (também a qualidade) de fazer um filme digno de admiração. O que antes era utilização de técnicas inovadoras para assustar, agora vemos uma arte acomodada que só se espelha no passado achando que será obtido o mesmo resultado de obras de outrora.

Colinas de sangue é um bom exemplo atual desse gênero perdido. Ele só faz aumentar o número de filmes que nada acrescenta ao gênero e nada diverte. Na verdade é um filme aborrecedor. Com a premissa de um jovem que quer inovar os filmes de terror, ele satiriza o gênero, coisa que muito já foi feito e há bastante tempo perdeu a graça.

O jovem aventureiro, e que tenta ser vanguarda, nada mais é que o diretor do longa, que – metaforicamente – tenta ele mesmo buscar um novo frescor para o gênero que muitos não ousam pisar.

Tudo em vão. Não vemos nada de inovador (só se uma narrativa confusa e sem nexo contar agora como “inovadora”). O sexo desnecessário é o mesmo dos outros filmes. Os vilões sádicos/revoltados com a sociedade se repetem. O mocinho bom samaritano (que só faz sexo quando ama) também está lá. Fora as outras coisas maneirísticas que fazem o filme ser mais uma bomba.

Quando digo que o gênero está perdido não quero dizer que o gênero está morto. Alguns cineastas conseguem achar uma nova forma de usar o terror, mas poucos conseguem vinga-la com sucesso. O que digo que está perdido é esperança de um dia ver o gênero de terror com tantas obras de qualidade que se sobressaiam no assustador número de obras horrendas como essa daqui.

1/5

O Cavaleiro das Trevas do Nolan (Ou A Morte Do Cinema III)

Estamos vivendo em um mundo onde a megalomania de grandeza domina as cabeças de todos.  É nesse mundo que vemos surgir obras cinematográficas que necessitam lucrar, precisam receber uma atenção dos holofotes que a chamam de grande, tudo isso sem se importar com o verdadeiro prazer de fazer cinema.

Cada ano que passa percebe-se que as qualidades artísticas do cinema comercial desaparecendo aos poucos, o que fica no lugar são as defeitos escondidos com métodos para causar efeitos instantâneos nos telespectadores. Só se importam com o dinheiro e o reconhecimento alienado. Vemos obras sendo criadas de uma forma que parecemos estar assistindo várias receitas de um mesmo livro, só fazem mudar a quantidade dos ingredientes sugeridos, mas que causam a mesma reação. De ‘Amnésia’ até ‘A Origem’, os filmes buscam atacar um publico específico, publico esse que não se preocupa em mastigar a obra antes de engolir para sentir seu gosto. Consomem por ver um circulo redondo bem estruturado, mas basta passar a língua perceptiva para perceber o gosto amargo e ruim deles.

Com isso, andam surgindo atualmente diretores que poderiam ser facilmente comparados com confeiteiros. Suas obras são como um bolo, que não se importa em buscar originalidade ou inovar, só se contenta em agradar o senso comum. Um bom exemplo desse cinema confeitado é o cineasta Christhoper Nolan. Seus filmes são feitos com a mesma receita e a única coisa que ele faz para ser visto com olhares diferentes é acrescentar uma calda grossa por cima de tudo para esconder o verdadeiro gosto de suas obras.

Seu cinema ainda é intitulado de “Cabeça” e usam como principal argumento a necessidade que temos que pensar durante toda a sessão. Realmente somos obrigados a pensar, mas um pensamento que se torna vago quando no final nos tocamos que ele entrega tudo mastigado em nossas bocas e a única coisa que ganhamos por pensar tanto é uma tremenda dor de cabeça.

Mas o Nolan é esperto e percebeu que quanto mais ele mistura e cansa a plateia, mais ela vai simular que gosta dos filmes para não se sentirem por fora do suprassumo do momento.

Com a barraca da alienação formada, esse ano ele entrega o ultimo filme de uma trilogia de sucesso comercial. É o Batman (no qual todos gostam de ressaltar que pertence ao Nolan), a sensação anual, onde todas as características do seu cinema confeitado estão presentes.

Vemos o corre-corre exagerado, a pressa sem necessidade em momentos importantes da trama, clichês comuns do gênero de super-herói e personagens caricaturais. Porem, o que mais me impressiona no filme é a quantidade de artifícios que o diretor usa – exageradamente – para o filme ser taxado de épico contemporâneo. O gosto do fim está presente de quadro a quadro da projeção e é um tanto constrangedor uma trilha sonora orquestrada (que parece marcha imperial de Star Wars) tocando toda vez que alguém aparece para dá uma lição de moral ou quando surge o mocinho para salvar a jovem donzela em perigo.

Diretores que se mostraram promissores em começo de carreira estão optando por um caminho mais fácil, onde o dinheiro flui como rios e o publico fica de barriga cheia com obras tão inferiores quanto essas.

É triste ver o caminho que o cinema está traçando com obras como essas, onde o nível de efeitos especiais, as quantidades de explosões e as cansativas reviravoltas são o que comandam sua qualidade. O prazer de ver o cinema com um olhar cinematográfico está morrendo e o que daqui a pouco fica no lugar é o prazer de ver o cinema por uns óculos 3D,que só causam o deleite visual.

Lamentável testemunhar que a “Arte vs Dinheiro” acabou com o segundo nocauteando o primeiro que agora é usado apenas para pincelar as obras com camadas muito finas.

Saí do cinema pensando no futuro do cinema e se obras como essa se tornam sinônimo de referências para os filmes de um futuro não muito distante. São momentos como esses que o futuro me causa medo.

1/5

A Dama de Ferro (Ou A Morte do Cinema II)

O cinema está deixando de ser uma área para a expressão artística e se tornando uma batalha de egos, onde o nome vale mais que a obra e o “talento” vale mais que a mensagem artística. Somos bombardeados dia-a-dia com filmes que não se importam em expressar algo artístico, seja para o lado poético ou divertido. O que é visto agora são filmes que buscam status, prêmios e, principalmente, dinheiro. Pouco a pouco os valores do cinema estão morrendo e o que está tomando o lugar de tudo isso são os valores pessoais dos diretores, roteiristas e atores. Um grande exemplo disso são as fitas que vemos e percebemos que os atores principais se tornam mais importantes que a história, que os personagens, relatada ali. Olhando para hoje (sem querer ser saudosista) percebemos que os valores que eram comuns – e até mais aceitáveis – décadas atrás se perderam entre os rios de dinheiros que envolvidos na área cinematográfica andam ganhando. Antes os artistas com maior prestigio tinham a visão antes de escolher seus filmes e não visavam só o quanto iam lucrar com ele, sempre procurando obras que engrandecem seu nome como “artista”. O que vemos agora são atores que não se importam mais com esses valores antigos e se vendem para os filmes que lhe ofereçam mais dinheiro e, claro, mais prêmios.

Um grande exemplo recente é a biografia da ex-primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, mas ouso em dizer que o filme não é sobre a “Dama de Ferro” e sim para engrandecer o nome da atriz que a interpreta, Meryl Streep.  Em nenhum momento vamos ouvir alguém dando prioridade à história contada no filme, se vemos é no máximo um parágrafo de quatro que os três restantes falarão da atuação da Meryl. O filme deixou de ser foco da Thatcher e passou a ser o filme onde a Meryl Streep tem grandes chances de ganhar o Oscar, depois de tantos anos. E assusta mais quando vemos sua propaganda, onde o nome da atriz principal ganha mais destaque que próprio filme, e quando não é, está ali em maior destaque, mesmo que menor.

Filmes como esse só comprovam o buraco fundo que Hollywood está cavando, buscando tudo que é irrelevante e esquecendo-se do mais importante: a arte de fazer cinema. Está tudo morrendo, a arte está morrendo, o cinema está morrendo. E eu irei fazer parte dos que falam pouco do filme em questão, não porque eu achei que a Meryl esteja maravilha, mas é porque filmes como esses ficam faltando adjetivos para desqualificar. Um filme enfadonho, clichê e gritando a todo instante por um Oscar. Sinceramente, eu preferia ter ido ver o filme do Pelé.

1/5

Quarto 666, de Wenders (ou A Morte do Cinema)

Estamos caminhando para um mundo onde a arte será padronizada, feita para cada tipo de pessoa, sempre caminhando na linha da mesmice, do igual, com medo da inovação, da renovação, da ousadia. Foi em Cannes, no derradeiro ano de 1982, que Wim Wenders convidou vários colegas (cineastas) para gravarem um monologo em cima dessa reflexão com uma pergunta bem peculiar: “O cinema está morrendo enquanto linguagem? Será uma arte defunta?”. Com um gravador e uma câmera, os cineastas confinados dentro de um quarto tinham que responder – um de cada vez – essa pergunta. Muitos aprofundaram e se permitiram viajar para encontrar a resposta ideal para a pergunta, mas alguns, infamemente, só aproveitaram o espaço para promover seus filmes e sua carreira. Mas o que Wim queria deixar bem claro com esse experimento é que o cinema caminha todos os dias para um caminho sem volta, onde a liberdade artística será menor que a vontade de lucrar e arrecadar dinheiro. Até Cannes pode servir de exemplo para o que Wim queria dizer com esse documentário. Se pegarmos o festival até a época que foi feito essa fita para os dias atuais vamos ver que a qualidade artística, que o festival preza, caiu, enquanto que o apelo comercial só fez aumentar.

Em minha opinião, o cinema (em sua essência verdadeira) não chegará a morrer, mas ele está enfraquecendo. Poucos cineastas procuram manter essa verdadeira essência viva, poucos cineastas prezam pelo valor artístico das suas produções. Chegará um momento que as produções de verdadeiro cunho artístico vão ser poucas que só restará para nós, cinéfilos, viver do saudosismo de antigas produções.

3/5