Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

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Reza a lenda que Dead Souls era a música escolhida para iniciar os shows do Joy Division, sendo assim possível – dentro da sua introdução de quase dois minutos – que Ian Curtis sentisse qual era o clima que pairava e com isso entregasse uma experiência que beirava ao divino a todos que estavam presentes. Aquarius se inicia em uma tela preta com o barulho do mar e, até que a primeira cena do filme realmente aconteça, a mise-en-scene de Kleber está ali a arquitetar um experimento preciso para todos aqueles que compartilham o ambiente escuro do cinema.

Mesmo sem a áurea depressiva que Ian Curtis carregava em sua persona, Sonia Braga surge sem aviso prévio – assim como a voz do vocalista britânico na música. Ela é precisa, intensa, avassaladora. Uma verdadeira encarnação do cinema, que quando olha para a tela sabe que está sendo filmada por Kleber e observada por nós. Ela não tem medo de se entregar, de expor suas vísceras na tela. Ela se faz onipresente mesmo estando constantemente em cena.

O show segue e o filme também, e o conforto que o incomodo possui é muito interessante. Ver os conflitos e a forma que eles são filmados é um tanto Cassavetiano. A câmera que sabe onde filmar porque compreende por completo tudo que está acontecendo e todos os sentimentos presentes de onde está inserida. Sabe onde incomodar, onde humilhar, onde admirar o bela assim como o que tende a ser feio.

Até que chega o horror. A realidade que bate a porta e que nem todos são capazes de enfrentar. Existe a negação, a ira, a barganha, a depressão e por fim a aceitação. As fases do luto que podem não ser na exata ordem que se devem acontece, mas que sempre acontecem. Clara pode não ter tido o mesmo destino do Ian Curtis, mas ela também se sentiu incomodada com a crueldade que a rodeava e resolveu, por fim, ser um incômodo.

Se Cassavetes tinha Gena Rowlands, Kleber Mendoça Filho tem Sonia Braga. Ambas são a energia, se perdem e se encontram em cena. São mulheres. Mulheres.

Aquarius é como ouvir um disco do Joy Division. É tudo belo na mesma proporção que o realidade machuca. Mas o que importa no fim é saber que você não será mais o mesmo depois da experiência.

Que Horas Ela Volta? (Ou A Piscina)

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Ser cinéfilo é uma condição que vai muito além de assistir e tentar entender filmes. É o dom (alguns podem considerar maldição) de ser tocado pelas imagens. Muitos que vão em busca do fazer cinema não conseguem compreender esse simples fatos e fazem filmes que esquecem que são – acima de tudo – transmissores de imagens. O que os cinéfilos buscam quando vão ao cinema é muito além de um simples filme para se assistir e se sentir inerte em relação ao tempo e espaço que se encontram. A sua busca é pela imagem perfeita, construída para ser impactante, para refletir e fazer com que tudo faça sentido. Se temos John Wayne sendo enquadrado do lado de fora da casa em Rastros de Ódio, Nastassja Kinski sendo fitada pela câmera de Wim Wendes na cena do telefone de Paris, Texas ou Anthony Perkins quebrando a quarta parede na cena final de Psicose é porque uma única imagem é necessária para que aquele filme seja enterrado em nossa mente. É como se a celulose de todas as cenas menores do filme tivessem consciência que estão trabalhando em conjunto de algo maior e se libertassem de qualquer vaidade em nome do filme. Que Horas Ela Volta? essa cena está entranhada em uma simples piscina. Quando Regina Casé entra nela é como se tudo que o filme tenta nos transmitir fizesse sentido. A crítica social da luta de classes se torna direta em apenas uma pequena cena, onde a liberdade toma conta da tela e a reflexão se faz dolorosa pelo tom de urgência que ela tem.

Que Horas Ela Volta não possui o impacto que Adirley Queiros transmite em seus filmes nem peca em querer adentrar numa classe especifica como Casa Grande faz. Ele é um filme que se segura na observação de uma realidade e acaba sendo tão pungente que parece que estamos vendo um filme de gênero, de horror. Horror social para ser mais especifico.

3/5

Conclusões de 2014

Acredito que 2014 foi um ano de certezas.
Um ano que fez surgir esperanças no novo, no antigo, e no que virá.
Sem muita cerimônia, apresento os filmes que considero os melhores do ano:

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  1. Era Uma Vez Em Nova York, de James Gray
  2. Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki
  3. Boyhood: Da Infância à Juventude,  Richard Linklater
  4. Garota Exemplar, David Fincher
  5. Branco Sai Preto Fica, Adirley Queirós
  6. Lucy, Luc Besson
  7. Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg / Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  8. Amantes Eternos, Jim Jarmusch
  9. Jersey Boys: Em Busca da Música, de Clint Eastwood / Inside Llewyn Davis, de Ethan e Joel Coen
  10. Quando Eu Era Vivo, Marco Dutra

Menção Honrosa

Existem filmes que não deveriam só ser apreciados nas pequenas mídias. Merecem a tela grande, com a melhor qualidade possível. Só depois do dia 25 de Outubro de 2014 eu pode constatar toda a potência de uma das obras que mais tive o prazer de ver ao longo da vida, então guardo para ela a maior das menções:

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  • The Rocky Horror Picture Show, de Jim Sharman

A Invasão Em Sessão de Terapia

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Assim como os músicos – que enfrentam a difícil tarefa de se mostrarem eficientes logo depois do primeiro disco – Selton Mello tinha em mãos um desafio gigante: conseguir criar uma trama original em cima do que ele já havia trabalhado anteriormente em Sessão de Terapia. Se o material usado na primeira e na segunda temporada vinha diretamente da série israelense BeTipul (Ou a versão americana “In Treatment”, se preferirem), agora, na terceira temporada, era preciso que se criasse algo inédito.

Incrivelmente, essa dificuldade foi vencida e a ultima temporada de sessão de terapia convence, consegue fazer jus a sua forma de direção requintada, revisando e corrigindo os erros da anterior e alimentando expectativas para o que virá além.

Se na primeira temporada temos um estudo de câmera (tendo em vista as reações causadas pelo seu posicionamento) e na segunda temporada um estudo de ambiente (uma metáfora dos problemas que um novo local pode causar), na terceira temporada o estudo principal nas consultas é a invasão que ocorre durante as sessões. Seja de pessoas relacionadas aos pacientes e, principalmente, de pessoas envolvidas na vida de Theo, a invasão se faz presente para mostrar as dificuldades de uma terapia sadia e produtiva só com a relação paciente versus terapeuta.

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Sartre já havia dito e eternizado o problema de se conviver com seus semelhantes falando que “o inferno são os outros”. E essa questão é o que resume bem os pacientes que estão sendo atendidos por Theo: todos os seus problemas são totalmente interligados a outras pessoas que habitam em suas vidas.

Alguns pacientes têm essa invasão consumada logo nas primeiras consultas e passamos a compreender rapidamente o seus problemas. Outros essa invasão pode até ser previsível, mas só vamos mesmo entender a complexidade de seus problemas quando elas acontecem de fato. Essas que tardam para acontecer são responsáveis por uma modificação significativa no diagnóstico que Theo (e o telespectador) fez do paciente, uma reviravolta cerebral.

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O caso mais interessante, no entanto, é aquele que a invasão não aconteceu – pelo menos não nesta temporada. Theo trata a viúva de um dos seus pacientes mais marcantes. A invasão nas suas consultas não é necessária. Ela já foi invasora em alguns momentos da série e já tivemos uma percepção de sua persona criada em nosso imaginário coletivo nas sessões de seu marido. Logo, só cabe a ela a mudar a percepção pré-existente de sua personagem, o que resulta nos momentos/cenas mais intensos, dramáticos e preciosos da temporada.

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No entanto, não são apenas os pacientes que sofrem com essas invasões. Theo é quem mais fica exposto diante da percepção geral. Seja na sua casa (com seu filho que passa por problemas com drogas) e, principalmente, nas primeiras consultas em grupo que ele faz. As invasões que o terapeuta sofre no decorrer da série mostra o quão metamórfico pode ser nossa percepção das coisas.

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Se antes víamos um médico frio na primeira temporada que logo se tornou confuso na segunda, agora vemos, aqui, na terceira temporada, um ser que, finalmente, parece ter encontrado o caminho para chegar ao equilíbrio tão desejado.

Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

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Na clara simetria de um comércio destrutivo, segue a reflexão de um cinema que se faz em cima de incertezas e não se torna, em nenhum momento, frágil quanto a isso. Se torna forte quando se faz desnecessário para muitos.

Doce Amianto (não tão diferente dos seus irmãos do coletivo cearense Alumbramento) racha a necessidade de uma identidade nacional para o cinema. Se temos agora, em pleno século XXI, um cinema que busca, com fervor, uma identidade e um reconhecimento, percebe-se neste exemplar essa necessidade se tornando prolixa.

O que Guto Parente e Uirá dos Reis acabaram fazendo foi um filme maldito. Primeiramente por não se importar em desviar de uma linearidade narrativa que seja cronológica. O roteiro recebe um verdadeiro poder de viajar no tempo, cuspindo nos padrões estabelecidos por D. W. Griffith, nos confundindo entre delírios, flashbacks e flashforward que não se explicam – e nem sentem necessidade disso. E com tudo isso, quase que diretamente, quebra o conceito de realidade composta pelo cinema do neorrealismo, que acabou se tornando dogma para os filmes que buscam um cunho independente.

A produção cearense, com todos esses pontos, se torna incoerente demais para ser aceito no círculo comercial e “lúdico” demais para poder adentrar na cena independente. Um filme sem tribos, sem amigos. É o cinema brasileiro finalmente quebrando a necessidade de política para abraçar a necessidade de se fazer imagem pelo mero prazer de eternizar aquilo que não precisa ser eternizado, mas se tem vontade disso.

Doce Amianto é a imagem que existe apenas para existir, como objeto da esquizofrenia do imaginário coletivo. Para causar sensações.

É a imagem sendo imagem, apenas isso.

4/5

O Ambiente Em Sessão de Terapia

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Uma recaída que se fez presente no recomeço. A segunda temporada de Sessão de Terapia (com a mesma mão de Selton Mello) acaba que se fazendo um estudo sobre o ambiente. Se antes – na primeira temporada – vimos a câmera habituada a um local, se fazendo presença dominante diante de suas vítimas que invadem seu território, agora vemos um objeto indefeso, tentando se adaptar ao novo ambiente, que se é estranho e possui grandes desafios.

O primeiro desafio visível é a incompatibilidade espacial. O engodo do ambiente da qual não se está acostumado. Theo se sente desprotegido, deslocado, pois seu consultório mudou de local. Ele também se mudou. Essa mudança acaba sendo  sentida, seja no terapeuta, seja no telespectador. A câmera agora deixa de ter seu lugar fixo, seu conhecimento se torna nulo. A medida que ela caminha pelo apartamento vemos toda o desconhecimento do local. Ela está ainda em fase de conhecimento, de adaptação do novo ambiente. Nós também passamos a conhece-lo melhor. Mas a câmera (diferente de nós) não está se movimentando pelo gatilho da curiosidade de um local novo a ser explorado, a ser descoberto. Seu movimento é a tentativa de buscar sua antiga soberania sobre a situação da terapia e sobre os pacientes. A busca pela intensidade que era capaz de extrair; a pressão que era capaz de causar. A câmera sofre com o novo e desconhecido ambiente. Sofre mais que o terapeuta. Sofre mais que nós. O incômodo que ela causou na primeira temporada parece que agora se voltou contra ela.

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Essa impotência de ambos os protagonistas (Theo e a câmera), diante o desconhecido, faz com que os pacientes sejam mais flexíveis, menos infiltrados. Se antes a câmera pressionava os pacientes ao ponto dos mesmos cederem a total pressão, agora vemos uma resistência severa. A compreensão se torna ambígua, as lágrimas não possuem a mesma intensidade, o excesso é algo falho, escasso.

O segundo desafio se faz com a presença do corpo estranho na terapia. Constantes são as visitas inesperadas nos episódios. O que antes se fazia previsível, agora se faz imprevisto. Antes os nomes nos créditos finais se limitavam ao que representava as personas do terapeuta e do paciente, agora, aqui, na segunda temporada, a invasão se torna algo corriqueiro e os nomes em excesso acabam comprovando a quebra do padrão terapêutico. Essa invasão atrapalha a evolução do tratamento. Não nos focamos mais em um só ser, acabamos nos focando em ligações externas, que não deveria estar muito ali. Até projeções de antigos pacientes se fazem presente, nos confundido, nos deixando impossibilitados de submeter nossa própria análise dos casos diários.

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Desses corpos estranhos que habitam esse novo ambiente desconhecido, o som é o que mais se faz impertinente. Ele, seja os ruídos da rua e o som alto da vizinha, é a porta para a volta da percepção do local hostil no qual nos encontramos. Atrapalha a câmera de engatilhar as emoções, impede que o terapeuta crie o clima que precisa para fazer certas perguntas, até chega a ensurdecer e deixa a desejar o que acabamos de ouvir.

A maneira que o som é trabalhado nessa temporada é como algo incômodo, que não faz fluir. Percebemos pela trilha sonora que perdeu toda a força no poder de envolvimento –  coisa totalmente diferente do tratamento que ela recebia na primeira temporada, se tornando algo necessário para o desenvolvimento do clímax de envolvimento “Plateia VS Série”. Agora seu tratamento parece que foi desleixado, criando um clima de irritação pela sua má utilização.

De todos os desafios enfrentados nessa temporada da série, o mais critico de todos acaba sendo o mal desenvolvimento dos personagens. Se na primeira temporada podemos acompanhar todas as fases do tratamento dos personagens, agora ficamos confusos de quem realmente precisa e está em tratamento. Os problemas pessoais de Theo acabam se tornando o plano principal da série. Mesmo esses problemas sendo responsáveis pelo momento mais belo da temporada (a visita de Theo ao pai resultando nas imagens de sua infância) eles acabam sendo também o culpado de seu declínio. Os pacientes se tornam secundários e acabam perdendo espaço e tempo em cada episódio, impedindo seu (já falado) desenvolvimento, tornando-os opacos.
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O que acaba óbvio no final da temporada é a perda de oportunidades que o diretor deixou passar. A troca de ambiente poderia despertar reflexões mais aproveitadoras, mais gratificantes, acabou ficando atado a sua própria armadilha.

Vale ressaltar a personagem da vizinha que, mesmo não tendo o devido aproveitamento, foi responsável pela bela cena final da temporada, onde Theo acaba se encontrando consigo mesmo. Ela é o elo que The (e a câmera) precisava para compreender melhor o ambiente que se encontrava.

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Resta torcer para que a temporada seguinte repare todos os erros cometidos por essa e faça com que o ambiente desconhecido não seja um lugar de medos, e sim de descobertas.

Uma Passagem Para Mário, de Eric Laurence

Uma-passagem-para-marioSegue o embalo das imagens, dos sons, das memórias, dos sentimentos. Percorrer o caminho duro de quem não está mais presente na busca de redenção e, quem sabe, da presença improvável. É o deserto que temos o cenário do exílio, dos passos incertos, dos sons que ninguém podem escutar. Com o caminhar perdido por um isolamento necessário. Aceitar deixou de ser luxo para se tornar a unica opção. Opção essa que não se faz em nenhum momento obrigatória, pois vemos o sorriso no rosto de quem sabe que vai partir, de quem sabe que não vai mais ter presente. E se os sorriso se fazem sinceros, nunca iremos saber. Na verdade não tem importância. O que vale é o que a imagem captou, o que a imagem eternizou. É a imagem que vai eternizar tudo que foi e tudo que ainda irá partir.

Mário é onipresente em toda projeção. Mesmo quando sua voz cessa, continuamos o ouvindo. Mesmo quando sua imagem acaba, não conseguimos deixar de vê-lo.

Mário deixa de ser um amigo do diretor e passa a ser seu mentor, sua paz, seu refugio, seu guia por um caminho de autodescoberta, de melancolia.

Uma Passagem Para Mário é o testamento de uma pessoa que nem o escreveu, de uma pessoa que morreu. Mas o seu amor não. Mário se fez eterno. Mário virou imagem. E imagem é algo que nunca morre.

4/5