Mãe! (Ou Para Que Serve O Cinema Agora?)

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Alguns cineastas compreendem o impacto que o cinema causou logo no seu surgimento. A sessão da Chegada do Trem a Estação é até hoje a lenda mais significativa da sétima arte. Nela não só está o nascimento do cinema como o seu aspecto que justifica a sua existência: o poder de imersão.

Mesmo passando por fases e se transmutando constantemente em sua narrativa, o fazer cinema sempre esteve relacionado em fazer o público imergir da cadeira e se aventurar no que a tela está entregando.

Assistir Mãe!, o novo objeto de fetiche do Darren Aronofsky, por mais que questionável, é um verdadeiro ato de imersão. Sua trama misteriosa atrelada a uma narrativa absurda leva o telespectador do céu ao inferno em simples estralar dos dedos.

Mas para que serve o cinema agora?

Mãe! levanta a reflexão de que se realmente vale tudo para se ter uma boa experiência no cinema. Não que tenhamos a visão de espetáculo que a sétima arte abusou em outrora, nem a mesma qualidade de filmes com a propensão de se tornarem clássicos em um futuro distante, mas obras como essa do Aronofsky, que se vendem com a alcunha de filmes “para poucos” ou de “arte” mostram a fragilidade do cenário atual do cinema para que nos submetamos a qualquer coisa que nos entregam.

E ao comparar Mãe! aos filmes que tanto a obra quanto a crítica referenciam é que vemos a sua fragilidade. Em O Bebê de Rosemary também estamos na mesma posição que a protagonista e acabamos entregues ao que o sadismo do diretor quiser nos levar. E O Iluminado o absurdo narrativo também acaba fazendo o público ficar imerso até os créditos surgirem. Mas o que diferem eles de Darren Aronofsky é que tanto Polanski quanto Kubrick compreendem e respeitam o espetáculo cinematográfico para saber que até no cinema a gratuidade tem um preço a ser pago.

Quando chegamos ao fim de Dom Casmurro é de imediato a discussão se Bentinho foi traído ou não por Capitu. Machado de Assis sabia o que estava fazendo, aonde tudo isso iria levar e guardou a verdade consigo até o túmulo. Infelizmente não se pode dizer o mesmo sobre Darren Aronofsky e seu Mãe!…

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Kate Plays Christine, de Robert Greene

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Assistir Kate Plays Christine depois de ter visto Christine dirigido por Antônio de Campos acaba que sendo uma revisita um tanto que inusitado.

Pode parecer impossível não comparar as duas obras, mas acaba ficando claro os diferentes caminhos que os dois diretores querem seguir. Enquanto Campos simplesmente tenta recriar o desnecessário, Robert Greene está em busca de compreender o que levou a jornalista a cometer tal ato.

A beleza de Christine está na possibilidade do telespectador (sem esquecer que o público alvo de ambos os filmes estão atrás de uma mesma coisa) de criar uma visão de um mito, já Kate Plays Christine encanta pela busca da fidelidade, de um retrato que se assemelhe a realidade, sem soar caricato. Longe de estar afirmando que a interpretação de Rebecca Hall falha quanto retrata Chubbuck, sua atuação não só carrega o filme como acaba que legitimando a sua produção. E Kate não fica atrás quando busca não só imagens da jornalista como também em tentar compreender seu ato.

A questão é que ambas as obras se baseiam em uma premissa mórbida e que se pararmos para pensar não deveriam ter sido feitas, o que faz com que os filmes se destaquem por conseguir sair da zona de risco e entregar obras que se justifiquem por completo, mesmo que pelos motivos que podem parecer errados para alguns.

Mas é no fim que as obras se distanciam. A retratação do suicídio de Chubbuck em Christine tem o simples papel de entregar aquilo que todos querem, mas sem restringir ou passar a mão na cabeça do telespectador, enquanto que a própria Kate antes de gravar a cena derradeira se questiona se aquilo é necessário e logo percebe que a culpa daquilo tudo é de quem tá assistindo e não mede esforços para quebrar a quarta parede para nos xingar e nos fazer perceber o quão sádicos e patéticos somos.

Assim como Christine, Kate Plays Christine é um filme baseado em um vídeo que ninguém realmente precisa ver, mas acreditamos que sim. E não é por acaso que a arma é inúmeras vezes apontadas para a câmera (mesmo que algumas vezes pareça ser acidental). Aquele tiro ao vivo na cabeça errou o alvo.

Dunkirk, de Christopher Nolan

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O papel de criticar, por mais prazeroso e sádico que possa parecer, é muito difícil quando na atualidade estamos diante de filmes que na busca de espetáculos visuais esquecem de manter os pilares essenciais do cinema. Esses pilares essenciais que cito são aqueles que eu acredito fazer parte do que o cinema tem o dever de entregar para seu público, que são eles a imagem e o poder dessas imagens de nos contar histórias além daquilo que ouvimos e nos é dito. Excluo o som dessa lista porque o cinema antes de falar com os sons já conseguia se comunicar com as imagens, logo é necessário saber o que dizer com o visual para que o sonoro seja apenas um extra, um complemento para aqueles que assistem.

Dunkirk está longe de ser um filme ruim como os antecessores que o diretor entregou. Mas os problemas de Dunkirk são praticamente os mesmos que os filmes do Nolan acham que devem nos entregar: um habitual e irritante didatismo e uma mão de direção que parece ter saído de um programa de computador que apenas reproduz o que lhe é pedido sem nenhuma emoção.

O filme era inicialmente pensado pelo diretor como um filme mudo e foi logo convencido pelo estúdio de não fazer isso foi. Ao sair da sessão compreendi que se aquilo que acabei de ver fosse realmente um filme mudo talvez o conjunto da obra faria mais sentido. Quando digo som poderia está apenas focando nos sons dos personagens e das suas ações, mas acredito que um dos grandes tiros do pé do filme seja a trilha sonora ensuderecedora e inconveniente de Hans Zimmer. Por um momento senti inveja da velhinha que saiu no meio da sessão.

A trilha robótica do filme além de enfatizar a direção seca e sem sentimentos de Nolan mostra o quão precário é seu cinema. Endeusado por muitos e odiado por tantos outros, mas todos têm que concordar que Nolan não sabe o básico do cinema: fazer com que as imagens falem por si só. Assim como Dunkirk, o cinema de Nolan não possui a porta fechando com John Wayne do lado de fora; Danny correndo pelos corredores e encontrando as gêmeas fantasmas; ou até mesmo Vitor Corleone caindo junto com a banca de laranjas. É um tipo de cinema que de tanto querer ser memorável acaba por se tornar deveras esquecível.

No entanto, mesmo com tantos defeitos notáveis, é um filme que funciona como experiência e quando visto com uma noção fragmentada, mas nunca quando pensado na sua coletividade. Nolan é um diretor que filma muito bem, talvez o mais engenhoso da sua geração, e é legal poder ir assistir uma obra sua sem sair com vergonha da sala por ter visto aquele filme no cinema.

Z – A Cidade Perdida, de James Gray

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Para começar a falar de James Gray e especificamente de Z, seu ultimo filme, preciso confessar que como cinéfilo sempre tento ver western em tudo e estou em busca da narrativa perfeita.

Dadas as devidas proporções do problema, vamos por partes.

Z como um Pós-Western

Desde o começo de sua carreira, Gray decidiu se aventurar pelos policiais, gênero que é delicioso para uns e decadente para outros. Policiais acabam sendo os western modernos que só as armas e os desejos de liberdade permanecem enquanto que todo o resto da estética toda se transmuta. O cinema policial de Gray evoca, acima de tudo, a busca da redenção pessoal tentando sair vivo das consequências dos erros do passado. Não chegaria a ser muito bruto trocar os carros por cavalos nem o urbano pelo rural, já que nesses dois tipos de cinema a lei é algo que não existe como deveria existir.

Logo após os filmes para esse gênero, Gray se aventurou nos dramas e com isso acabou compreendendo que o cinema é um sistema de transição, desapego. Pulando Amantes (compreendendo que se trata de um dos seus melhores filmes) vemos que ele resolveu se aventurar pelo classicismo dos filmes de época, mais especificamente aqueles que acompanham a transição para a época que conhecemos como moderna.

O que Era uma Vez em Nova York e Z têm em comum é que ambos são de uma época após o que o cinema retrata em western. Os carros estão surgindo, os cavalos aos poucos desaparecem.

Gray parece ter sentido que fazer western policiais já não o satisfaria mais porque ele queria ir além. Ele queria saber o que vinha depois, criar em cima do que realmente aconteceu, ser capaz de ser artificializar sem perder a vida.

Mas o lirismo de western é mantido, porque Gray compreende que o lirismo narrativo do gênero é algo que nunca deve-se realmente desapegar.

Z como narrativa perfeita

Tempos atrás sempre vi Zodíaco de David Fincher como o filme que consegue ter a melhor narrativa moderna do cinema. Muito dessa perfeição que vejo é muito além da forma de retratação da época que a direção de arte conseguiu fazer. Vem muito de conseguir transpor com naturalidade a realidade da época. Em Zodíaco temos os anos 70 trabalhados principalmente nos estereótipos que temos da época sem em nenhum momento soar desrespeitoso. O que Gray consegue é exatamente o que Fincher conseguiu fazer na sua obra-prima, mas conseguindo ir além e transformar os personagens no que eles realmente significam na época. Sem que em algum momento isso soe destoante com a época que os que assistem estão vivendo.

Os personagens em nenhum momento soam preconceituosos com questões que hoje estamos esclarecidos e sabemos que naquele momento do tempo não. Os personagens são produtos daquilo que está sendo retratado da época, e em nenhum momento nos deixa se distanciar do filme e daquela história que está sendo contado.

Mas sem esquecer que esse faz parte daqueles tipos de filmes no futuro vamos nos questionar se no atual seria produzido. Werzog tem seu Fritzcarraldo. David Lean tem seu A Filha de Ryan. E agora James Gray tem o seu com Z. São filmes que ultrapassam a linha do épico e partem para algo bem além disso, beirando entre o amor prazeroso e a obsessão destrutiva.

***
James Gray sem sombra de dúvidas é o herdeiro direto do cinema clássico americano. Ele precisa se aventurar pelo cinema independente para conseguir o primordial para todo artista que é finalizar, mas sua herança está começando a gritar dentro de seu peito e seus filmes na medida que estão sendo lançados estão deixando isso mais claro.

Logan, de James Mangold

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Compreender o cinema como um movimento de massas pode parecer uma afronta para os mais cinéfilos, mas é uma realidade inegável. Mesmo que na sua criação ele acabara sendo uma arte marginalizada, foi com o “roubo” da elite que o cinema se tornou um espetáculo, e espetáculos só são o que são por causa do seu público. Mas o que define um bom filme? O público ou suas qualidades?

A experiência de ver Logan [James Mangold, 2017] dentro de uma sala de cinema acabou por ser uma experiência a parte. Percebe-se que antes, durante e depois da sessão o comportamento da plateia, que acredito ser o público alvo da película, é interessante ao mesmo tempo que assustador e intrigante, pois esse comportamento demonstra conceitos pré-fabricados sobre a película, já tendo uma opinião sobre o longa antes mesmo dos seus créditos iniciais serem apresentados.

Me perguntava constantemente porque o meio cinéfilo no qual acredito estar inserido nunca foi interessado nesse tipo de cinema. Agora percebo que a cinefilia, além de tantas camadas, preza principalmente pela criação de opiniões de forma livre, sem pressões de terceiros, e esse tipo de filme parece ser domado por alguma força maligna que exprime opiniões, prontas para serem disseminadas (lê-se: marketing).

O papel do marketing acaba que sendo uma faca de dois gumes. Se temos obras interessantes (Quarteto Fantástico [Josh Trank, 2015] e Batman vs Superman [Zack Snyder, 2016]) que acabam sendo massacradas por uma opinião pública cega, por outro lado temos obras como Logan que, mesmo significado um avanço para duas tentativas de filmes de mão pesada, não surpreendem em nada, apenas fazendo um trabalho decente e não excepcional.

Entendo em partes a necessidade de se ter um filme bom sobre seu herói favorito, só não consigo entender a glorificação para filmes meia-boca como esse.

Christine, de Antonio Campos

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Ser um diretor é indagar a todo momento se seu filme se faz necessário. É estar sempre se questionando sobre o que realmente está sendo feito durante todo o processo de criação. É se perguntar se realmente as imagens que estão sendo feitas ali são realmente devidas. Vendo Christine, do Antonio Campos, acabei me permitindo sentir esses pensamentos que são de exclusividade do diretor. Não só por se tratar de uma história que eu já sabia onde iria acabar, nem também pela sensação de curiosidade de como ela iria ser contada, mas simplesmente pela obsessão coletiva que foi criada diante da persona principal. Christine Chubbuck acabou se tornando um dos mitos mais intrigantes da era moderna. O seu suicídio ao vivo se tornou meio que objeto de uma curiosidade mórbida de todos aqueles que sempre quiseram (mentiria quem negar que nunca tivera curiosidade ou até tentou procurar o vídeo na rede) assisti-lo.

Acabou que a conclusão de que as imagens são inexistentes tornou-se uma frustração coletiva e o surgimento desse filme do Campos acaba sendo uma corajosa e ousada necessidade de criar a imagem que todos sempre quiseram ver. O que torna Campos corajoso é querer contar uma história tendo por base um suicídio, sendo isso também o que o torna ousado, se utilizando de escolhas que o fazem a todo momento andar por um caminho de ovos, onde a qualquer momento o controle do seu carro pode cair num precipício.

O mais divertido disso tudo é perceber que tanto faz se Christine é um filme bom ou ruim, ou se o roteiro perde muitas vezes a oportunidade de ficar calado (?). Ele é um filme que está fadado ao ostracismo se for buscar abrigo nos braços do seu público alvo, e longe de ser aclamado por quem desconhece a história e acabar entrando de gaiato no navio.

Como artista de um só sucesso, Christine faz por cima de uma só cena, aquela que todos estavam esperando desde a lida da sinopse na fila do cinema ou anos lendo blogs/fóruns sobre teoria da conspiração. O que poderia ser uma prisão acaba sendo libertador pois as imagens que serão recriadas só aconteceram, ou seja, não existem de verdade, então passarão a existir pela primeira vez.

Campos pode muito bem ser mais um daqueles que estavam compartilhando informações e conversando sobre Chubbuck em fóruns ou em comentários de blogs, um obsessivo tão louco que precisava que as imagens fossem reais, que elas existissem, e então ele decidiu ele mesmo as criar, pois não aguentava perceber que continuava a espera para ver um vídeo que ninguém realmente precisa assistir.

Quadrilha Maldita, de André De Toth

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Logo nos minutos iniciais de Quadrilha Maldita (Day of the Outlaw, 1959)e perguntava porque André De Toth havia escolhido fazer o filme em preto e branco. Não que eu esteja afirmando que isso tenha sido uma escolha dele, pode ser que o estúdio e/ou o financiamento tenha determinado isso, mas gosto de ter a fantasia mental que os diretores são totalmente donos de seus filmes. Esse pensamento talvez tenha vindo por ter tido recentemente uma experiência cinematográfica de um filme seu usando a tecnologia 3D (House of Wax, 1953) que ainda engatinhava da década de 50. Toda sua noção de cores e das profundidades que ela podiam proporcionar me fizeram ficar admirado com seu domínio cinematográfico.

Todo esse questionamento foi em terra logo em seus primeiros 20 minutos quando acontece a primeira reviravolta da trama e acabei entendendo que o preto e branco era para alimentar toda a claustrofobia que a narrativa carrega. Naquele cidade perdida no meio de toda aquela neve não existem cores. Seja de seus moradores como todos daqueles que vão parar naquele fim de mundo. Quando William A. Wellman fez Dominados Pelo Terror (Track of the Cat, 1954) ele disse que queria fazer um filme preto e branco em cores. Mesmo com a ambientação parecida dos dois filmes (western de neve) o que Toth faz aqui é criar um filme onde as cores não precisam existir, na verdade não têm espaço para aparecer. Elas não são bem vindas. Toda a atmosfera sombria da história é enfatizada ao extremo pela fotografa que transforma aquela áurea pessimista que rodeia todos os personagens em uma perspectiva que se aproxima muito do NO FUTURE NO HOPE que os punks iriam levantar na sociedade setentista pós era hippie e pré década perdida da geração X.

Mas é no seu fim, quando o filme abandona todos aqueles que não interessam para focar nos personagens que se impõem a trama, é quando vemos que as personas que existem no universo western carregam dentro de si uma noção de fatalismo que só veríamos ser tão incorporada nos filmes policiais. Os Cowboy e os fora-da-lei esperam uma saída mesmo diante de um futuro inexistente.

O fim para os mais céticos pode acabar sendo um tanto indigesto, mas basta lembrar que estamos falando do western, onde as lendas devem ser publicadas e as verdadeiras histórias acabam sendo esquecidas.