Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Ela: O Cinema Original no Século XXI

É complexa a busca por um cinema que se torne o rosto de uma era. Se antes tínhamos a facilidade de identificar/escolher obras para serem as representantes de suas épocas, agora – no meio do ostracismo mundial – vivemos a dificuldade de compreender a geração que fazemos parte e tentar, com isso, localizar o cinema que nos defina. O amargo disso tudo é perceber que a fonte que bebem os cineastas contemporâneos – que não buscam uma reinvenção da linguagem – se encontra totalmente esgotada e os vestígios de uma morte cinematográfica de alguns gêneros parecem a única solução para que possamos respirar autenticidade – nem que seja em apenas um tipo de produção.

O século XXI abraçou a dúvida logo antes de chegar. Não só pelas inúmeras previsões do fim da humanidade que surgiam. O cinema se via perdido (para não se dizer esgotado), e os realizadores não conseguiam arrumar maneiras viáveis para compreender o cinema nessa nova fase.

O cinema digital, que muita fora desprezado, se tornava o herdeiro direto da celulose – que estava com seus dias contados. Era o passado abrindo espaço para um futuro cheio de imprevisões e receios.

Mas dois nomes podem ser destacados da geração pós-X do cinema americano que acabariam se tornando fundamentais para a existência do cinema original do século XXI: Charlie Kaufman e Spike Jonze.

Quero Ser John Malkovich é dirigido pelo Jonze e roteirizado pelo Kaufman. Ambos iniciaram a carreira juntos e a parceria renderia mais um filme: Adaptação.

Mas o foco aqui são as obras que ambos fizeram quando experimentaram caminhos diferentes. Kaufman quando roteirizou Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Jonze quando roteirizou e dirigiu Ela, obras que, acredito eu, sejam fundamentais para que compreendamos o cinema deste inicio de século que vivemos.

Brilho Eterno e o longa como objeto recriador de gêneros cinematográficos 

Sofríamos com um cinema se tornando cada vez mais genérico. É como se a linguagem se tornasse padrão e as firulas deixassem de fazer parte da essência do cinema. A vanguarda deixara de existir para dar espaço a formulas pré-fabricadas e filmes que nos faziam sentir em um eterno déjà vú dentro do cinema.

Kaufman se utiliza de seu surrealismo característico e cria uma obra que rompe com todos os padrões existentes. Sua linguagem se encarrega de destruir qualquer continuidade narrativa que fomos habituados a ver nos filmes de amor.

É um louvor ao cinema liberto exposto à Hollywood por Orson Welles.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças se encarrega da missão de reformular o gênero romântico, entregando para ele pessimismo e realidade, deixando de lado toda a fantasia herdada pelos contos de fadas.

A história – mesmo sendo puxada para o lado da Sci-Fi – agora se torna mais prático de acreditar, quebrando a premissa do “quero isso para minha vida” e dando espaço para uma identificação imediata entre o telespectador e a história que esta sendo entregue.

Ela e o cinema como objeto reconstrutor do imaginário coletivo 

A melancolia de Ela já começa nos minutos inicias quando vemos que nos iludimos com uma sinopse criando um futuro mentalmente focando o que já estava instaurado em nosso intelecto. Não vemos os carros voadores de todos os filmes futuristas e muito menos tecnologias absurdas que nunca pensaríamos no nosso presente. O futuro deixa de ser aquele que temos no imaginário coletivo – alimentado por centenas de produções que ousavam em visitar e tentar prever o futuro – e passa a ter uma fibra mais realista, mais palpável.

Quando a persona-voz da Scarlett surge, o longa deixa de ser uma Sci-Fi às avessas para se tornar um filme que absorve um formato que acaba sendo didático. O futuro deixa de ser tão distante e acabamos percebendo que aquela situação enfrentada pelo personagem do Joaquin Phoenix é tão possível como não queríamos que fosse.

Ela se torna um filme enganador. Absorve-se de um gênero, o reconstrói totalmente para tentar quebrar a visão formatada que nos forçados ter deles, impossibilitando a liberdade dele mesmo.

__

Jonze experimenta moldar em nossas mentes um gênero que está fincado, enquanto que Kraufman recria um gênero considerado morto se utilizando de elementos do mesmo que foram desgastados pelo uso excessivo.

Ambos os filmes podem não conter uma originalidade perfeita (o original é algo raro em uma arte que se precisa de referencias para ser compreendida), mas são sinceros e acabam dando frescor para um sistema que o declínio artístico era dado como certo.

Texto originalmente publicado na coluna “Cinema Descodificado” do site Cinema New.

Anúncios

A Invasão Em Sessão de Terapia

Sessão (1)

Assim como os músicos – que enfrentam a difícil tarefa de se mostrarem eficientes logo depois do primeiro disco – Selton Mello tinha em mãos um desafio gigante: conseguir criar uma trama original em cima do que ele já havia trabalhado anteriormente em Sessão de Terapia. Se o material usado na primeira e na segunda temporada vinha diretamente da série israelense BeTipul (Ou a versão americana “In Treatment”, se preferirem), agora, na terceira temporada, era preciso que se criasse algo inédito.

Incrivelmente, essa dificuldade foi vencida e a ultima temporada de sessão de terapia convence, consegue fazer jus a sua forma de direção requintada, revisando e corrigindo os erros da anterior e alimentando expectativas para o que virá além.

Se na primeira temporada temos um estudo de câmera (tendo em vista as reações causadas pelo seu posicionamento) e na segunda temporada um estudo de ambiente (uma metáfora dos problemas que um novo local pode causar), na terceira temporada o estudo principal nas consultas é a invasão que ocorre durante as sessões. Seja de pessoas relacionadas aos pacientes e, principalmente, de pessoas envolvidas na vida de Theo, a invasão se faz presente para mostrar as dificuldades de uma terapia sadia e produtiva só com a relação paciente versus terapeuta.

Sessão (2)

Sartre já havia dito e eternizado o problema de se conviver com seus semelhantes falando que “o inferno são os outros”. E essa questão é o que resume bem os pacientes que estão sendo atendidos por Theo: todos os seus problemas são totalmente interligados a outras pessoas que habitam em suas vidas.

Alguns pacientes têm essa invasão consumada logo nas primeiras consultas e passamos a compreender rapidamente o seus problemas. Outros essa invasão pode até ser previsível, mas só vamos mesmo entender a complexidade de seus problemas quando elas acontecem de fato. Essas que tardam para acontecer são responsáveis por uma modificação significativa no diagnóstico que Theo (e o telespectador) fez do paciente, uma reviravolta cerebral.

Sessão (4)

O caso mais interessante, no entanto, é aquele que a invasão não aconteceu – pelo menos não nesta temporada. Theo trata a viúva de um dos seus pacientes mais marcantes. A invasão nas suas consultas não é necessária. Ela já foi invasora em alguns momentos da série e já tivemos uma percepção de sua persona criada em nosso imaginário coletivo nas sessões de seu marido. Logo, só cabe a ela a mudar a percepção pré-existente de sua personagem, o que resulta nos momentos/cenas mais intensos, dramáticos e preciosos da temporada.

Sessão (5)

No entanto, não são apenas os pacientes que sofrem com essas invasões. Theo é quem mais fica exposto diante da percepção geral. Seja na sua casa (com seu filho que passa por problemas com drogas) e, principalmente, nas primeiras consultas em grupo que ele faz. As invasões que o terapeuta sofre no decorrer da série mostra o quão metamórfico pode ser nossa percepção das coisas.

Sessão (6)

Se antes víamos um médico frio na primeira temporada que logo se tornou confuso na segunda, agora vemos, aqui, na terceira temporada, um ser que, finalmente, parece ter encontrado o caminho para chegar ao equilíbrio tão desejado.

Unknown Pleasures

Joy-Division_Unknown-Pleasures_1979

“Isto não é um conceito, é um enigma.”
Frase presente na contracapa do LP do álbum.

Passa na cabeça a necessidade de uma música que deveria ser o mais visual possível. É difícil, é complexo, mas em nenhum momento chega a ser impossível. A arte tem vários estágios, e o de maior relevância é quando ela consegue se transformar além dos sentidos que está encarregada à atacar.

Uma foto segue diretamente para nossos olhos, ataca a nossa retina sem pensar duas vezes. E quando acontece da imagem carregar lembranças tão fortes e intensas ela acaba envolvendo todos os sentidos existentes. Uma imagem de nossa infância nos faz ouvir os gritos nas brincadeiras de rua; o gosto dos doces que não saiam de nossas bocas; o cheiro do café de nossas avós que infestavam cada cômodo de nossas casas.

Aquela imagem passa de uma simples obra de arte unilateral para se tornar uma arte de ampla estrutura capaz de nos tocar em vários dos nossos sentidos.

Ouvir Joy Division é essa arte ampla, que nos envolve não só no sentido da audição. A única diferença é que para que a audição se torne numa infestação dos outros sentidos não está na nostalgia – como no exemplo acima da foto. Uma primeira e única audição é o suficiente para isso.

É como ser transportado para uma viela da Manchester pós-revolução industrial. Somos capazes de ouvir nossos passos, os barulhos da máquina que nos rodeiam e nos prendem. Logo no começo de “Insight” ouvimos a porta de elevadores se abrindo. Elevadores esses que nos transportam de cima para baixo dos prédios que trabalhamos num emprego que nos obriga tanto a ser burocrático que acabamos nos tornando uma rotina existencial. Já em “She’s Lost Control” ouvimos os sprays que usamos para expor nos muros da cidade toda nossa insatisfação com o sistema que vivemos. Assim como em “Shadowplay” podemos ouvir os roncos dos carros que correm desenfreados, sem rumo, em busca de um destino inexistente.

A bateria mecanizada de Stephen Morris que se mistura a o baixo totalmente dominante de Peter Hook é a ligação que precisamos para compreender que estamos presos a algo que é maior do que tudo que acreditávamos. A guitarra – instrumento dominante no punk rock – de Bernard Sumner aparece apenas para lembrar que algo está morto ali, seja isso o post punk ou a alma coletiva que a voz marcante e perturbadora do Ian Curtis faz questão de nos lembrar a cada berro – e uivos – que mais parecem de desespero do que de revolta.

O debut do Joy Division (banda oriunda da cena punk de Manchester) veio para mostrar que o gênero estava morto. O punk, que surgiu em meados dos anos 70, não teve fôlego para completar sua permanência na década. O gênero era tão juvenil e tão intenso que veio a sucumbir em seus próprios ideais, perdendo a ira e só sobrando toda a frustação.

O que alguns não percebem é que as cartas já tinham sido jogadas na mesa. Já na capa do Unknown Pleasures somos entregues a uma arte conceitual do Peter Saville onde uma estrela morta é captada por um medidor de pulso. Esse mundo no qual o Joy Division tenta nos mostrar é o mesmo que Jacques Tourneur faz o telespectador adentrar em “A Morta-Viva”. Nele, o personagem do Tom Conway não mede esforços para resumir o que a personagem de Frances Dee irá encontrar em seu novo destino. Suas palavras são diretas e precisas quando ele diz:

“Aqui não há beleza, só morte e decadência. Pode não acreditar nisso. Aqui tudo de bom morre até mesmo as estrelas.”

Talvez seja um excelente resumo dessa obra tão singular e uma previsão do que iria de vir por ai. Unknown Pleasures assusta a quem ouve porque ele é uma explícita declaração de amor ao concreto, algo que está morto e não tem mais como ser entregue de volta a vida.

O Ambiente Em Sessão de Terapia

 vlcsnap-2014-02-18-18h40m44s63

Uma recaída que se fez presente no recomeço. A segunda temporada de Sessão de Terapia (com a mesma mão de Selton Mello) acaba que se fazendo um estudo sobre o ambiente. Se antes – na primeira temporada – vimos a câmera habituada a um local, se fazendo presença dominante diante de suas vítimas que invadem seu território, agora vemos um objeto indefeso, tentando se adaptar ao novo ambiente, que se é estranho e possui grandes desafios.

O primeiro desafio visível é a incompatibilidade espacial. O engodo do ambiente da qual não se está acostumado. Theo se sente desprotegido, deslocado, pois seu consultório mudou de local. Ele também se mudou. Essa mudança acaba sendo  sentida, seja no terapeuta, seja no telespectador. A câmera agora deixa de ter seu lugar fixo, seu conhecimento se torna nulo. A medida que ela caminha pelo apartamento vemos toda o desconhecimento do local. Ela está ainda em fase de conhecimento, de adaptação do novo ambiente. Nós também passamos a conhece-lo melhor. Mas a câmera (diferente de nós) não está se movimentando pelo gatilho da curiosidade de um local novo a ser explorado, a ser descoberto. Seu movimento é a tentativa de buscar sua antiga soberania sobre a situação da terapia e sobre os pacientes. A busca pela intensidade que era capaz de extrair; a pressão que era capaz de causar. A câmera sofre com o novo e desconhecido ambiente. Sofre mais que o terapeuta. Sofre mais que nós. O incômodo que ela causou na primeira temporada parece que agora se voltou contra ela.

vlcsnap-2014-02-18-18h32m19s137

Essa impotência de ambos os protagonistas (Theo e a câmera), diante o desconhecido, faz com que os pacientes sejam mais flexíveis, menos infiltrados. Se antes a câmera pressionava os pacientes ao ponto dos mesmos cederem a total pressão, agora vemos uma resistência severa. A compreensão se torna ambígua, as lágrimas não possuem a mesma intensidade, o excesso é algo falho, escasso.

O segundo desafio se faz com a presença do corpo estranho na terapia. Constantes são as visitas inesperadas nos episódios. O que antes se fazia previsível, agora se faz imprevisto. Antes os nomes nos créditos finais se limitavam ao que representava as personas do terapeuta e do paciente, agora, aqui, na segunda temporada, a invasão se torna algo corriqueiro e os nomes em excesso acabam comprovando a quebra do padrão terapêutico. Essa invasão atrapalha a evolução do tratamento. Não nos focamos mais em um só ser, acabamos nos focando em ligações externas, que não deveria estar muito ali. Até projeções de antigos pacientes se fazem presente, nos confundido, nos deixando impossibilitados de submeter nossa própria análise dos casos diários.

vlcsnap-2014-02-18-18h40m08s217

Desses corpos estranhos que habitam esse novo ambiente desconhecido, o som é o que mais se faz impertinente. Ele, seja os ruídos da rua e o som alto da vizinha, é a porta para a volta da percepção do local hostil no qual nos encontramos. Atrapalha a câmera de engatilhar as emoções, impede que o terapeuta crie o clima que precisa para fazer certas perguntas, até chega a ensurdecer e deixa a desejar o que acabamos de ouvir.

A maneira que o som é trabalhado nessa temporada é como algo incômodo, que não faz fluir. Percebemos pela trilha sonora que perdeu toda a força no poder de envolvimento –  coisa totalmente diferente do tratamento que ela recebia na primeira temporada, se tornando algo necessário para o desenvolvimento do clímax de envolvimento “Plateia VS Série”. Agora seu tratamento parece que foi desleixado, criando um clima de irritação pela sua má utilização.

De todos os desafios enfrentados nessa temporada da série, o mais critico de todos acaba sendo o mal desenvolvimento dos personagens. Se na primeira temporada podemos acompanhar todas as fases do tratamento dos personagens, agora ficamos confusos de quem realmente precisa e está em tratamento. Os problemas pessoais de Theo acabam se tornando o plano principal da série. Mesmo esses problemas sendo responsáveis pelo momento mais belo da temporada (a visita de Theo ao pai resultando nas imagens de sua infância) eles acabam sendo também o culpado de seu declínio. Os pacientes se tornam secundários e acabam perdendo espaço e tempo em cada episódio, impedindo seu (já falado) desenvolvimento, tornando-os opacos.
vlcsnap-2014-02-18-18h33m14s175

O que acaba óbvio no final da temporada é a perda de oportunidades que o diretor deixou passar. A troca de ambiente poderia despertar reflexões mais aproveitadoras, mais gratificantes, acabou ficando atado a sua própria armadilha.

Vale ressaltar a personagem da vizinha que, mesmo não tendo o devido aproveitamento, foi responsável pela bela cena final da temporada, onde Theo acaba se encontrando consigo mesmo. Ela é o elo que The (e a câmera) precisava para compreender melhor o ambiente que se encontrava.

vlcsnap-2014-02-18-18h43m08s224

Resta torcer para que a temporada seguinte repare todos os erros cometidos por essa e faça com que o ambiente desconhecido não seja um lugar de medos, e sim de descobertas.

O Papel da Câmera Em Sessão de Terapia

dead

Desde a invenção do cinema, as técnicas de filmagem foram se aprimorando previsivelmente. A câmera (o único meio de filmagem) sofreu várias metamorfoses na sua parte técnica que ocasionou mudanças na forma de utiliza-la. O que antes era usado apenas para registro passou a ser usado para causar sensações em busca de reações variadas.

O cinema também deu crias. Veio a televisão e nela várias outras formas de filmagem. As telenovelas, os programas e os seriados. Esse ultimo é o que, talvez, se aproxime mais das sensações que o cinema causa, mesmo que não tenha tanto sucesso.

O que acontece é que as técnicas que antes eram usadas somente no cinema estão sendo adotadas nesses outros meios. Seriados tentam ser filmes e tentam conseguir os mesmos resultados. Um bom exemplo atual (e nacional) é a série brasileira Sessão de Terapia (remake de uma série americana) que conta com a direção de Selton Mello. Ele usa e abusa de técnicas de filmagem para ocasionar reações propositais em quem está assistindo.

O jogo que Selton criou é totalmente dentro da “mise en scene”, tática do cinema que ele adotou em seus trabalhos de direção e que parece aprofundar a cada projeto que participa. Diferente de seus filmes, a direção em Sessão de Terapia é precisa e refinada. Um terapeuta recebe os pacientes no seu consultório e eles são envolvidos gradativamente por uma companhia que não está ali: a câmera.

Diferente das outras série televisivas, a câmera não está ali apenas no papel de registrar os fatos. Ela se torna um personagem que, diferente do terapeuta, não opina e nem se expressa, apenas observa. Essa observação é que consegue extrair o que se tem de mais escondido nos pacientes. De forma subjetiva, os personagens têm a consciência de que nós, telespectadores, estamos os observando contar seus medos e seus segredos e visto essa percepção logo partem para a defensiva.

O terapeuta começa a explicar o porquê das ações dos pacientes, e é ai que a câmera muda o seu papel e parte para uma intimidação. Quando qualquer sinal de fraqueza é perceptível, ela parte para cima dos personagens e quanto mais perto ela chega mais intensa são as reações que aparecem no consultório.

Uma das cenas onde a câmera se mostra como perseguidora para expor o sentimento dos personagens – e de certa forma humilha-los – é quando Theo em sua ultima consulta com Dora a confronta e com isso passa a mudar o foco da câmera para ela. Ela tenta se esquivar da câmera quando suas lágrimas (vide imagem abaixo) começam a escorrer, mas a sua tentativa é em vão e ela acaba percebendo que não é possível lutar para se esconder. E com isso sessa os movimentos.

1

Quem tem, na maioria do tempo, poder sobre quem a câmera deve seguir é o terapeuta. As perguntas são o gatilho necessário para ativar as condições de envolvimento que a câmera terá. Porém, as vezes, os pacientes tomam conhecimento inconsciente disso e passam a jogar a câmera em cima do terapeuta e, em alguns casos, conseguem faze-lo provar do próprio remédio.

Pode parecer martírio e não ter motivo para toda essa pressão, mas o papel do terapeuta é fazer com que as pessoas se entendam e consigam viver em paz consigo mesmas – é o que diz Theo na conversa com o Pai de Breno.  Os personagens procuram o terapeuta com alguma desculpa para não mostrar o verdadeiro motivo dos seus problemas. Um bom exemplo é o próprio Breno que foi a procura de terapia por culpa de um deslize no trabalho, mas (em sessões futuras) deixa mostrar o verdadeiro motivo dele estar frequentando o consultório.

Diante de sua verdadeira condição mental (que não está em perfeição, como ele imaginava), Breno entra em desespero. A descoberta de sentir algo que ele escondia o deixa sem chão e se sentindo pressionado pela câmera (vide imagem abaixo) ele corre ao banheiro – achando que seria o único lugar livre dela – para chorar.

2

Diante de tantos problemas de outros, Theo ainda trava uma briga pessoal na sua casa. Motivo que o faz ir ser consultado por Dora. A sua mulher o acompanha em algumas dessas sessões e os dois são expostos ao pressionamento da câmera e das perguntas de Dora. É naquele momento que ele entra em crise consigo mesmo e começa a achar que não é digno de atender seus pacientes por não ser a perfeição que todos diziam ser. Quanto mais se aprofunda em si mesmo mais ele se vê perdido.

A primeira temporada de Sessão de Terapia acaba de forma singular: Vemos Theo fora do teu habitat natural, o porto seguro que ele e nós estávamos acostumados de ver (talvez isso explique a coleção de barcos) e com isso percebemos que tem algo de errado ali. Depois de visitar um paciente, ele vai à casa de Dora totalmente desarmado, rendido, sem a intenção de ferir ou machucar. Logo em seguida o vemos caminhando na cidade, se distanciando da câmera. Pode ser a metáfora que ele não vai mais atender no consultório ou que apenas ele está precisando de férias de toda a intensidade de sentimentos que andava causando nas pessoas. Não saberemos até a chegada da segunda temporada. Mas é no caminhar de Theo e as pessoas que aparecem depois que mostram que ele está se misturando entre elas para ser um pouco normal, não se conhecer, ser apenas mais um que vive a esconder seus sentimentos.

3

“Contramão” (E A Teoria Do Amor Proibido)

Cena do clipe "Contramão"

Cena do clipe “Contramão”

O fluir de sentimentos sob a subjetividade é algo que se tornou constante no mundo artístico que consumimos. As musicas, os livros, os filmes, são todos feitos em cima de um sentimento e cabe ao seu autor saber maquiar suas artes de alguma forma na qual só os curiosos conseguiriam achar um significado.

Se formos para os primórdios da musica vamos perceber que não é algo atual deixar as musicas codificadas para expressar alguma coisa. Peguemos os Beatles e suas diversas musicas com duplo significado (até mesmo a especulação da morte do McCartney) ou até mesmo as letras ácidas do Morrissey que criou um eu-lírico aventureiro e misterioso. Todas elas escondem significados diversos sobre alguma coisa especifica.

A musica em questão aqui é “Contramão”, do segundo disco (de 2008) da banda carioca Moptop. A letra, escrita pelo Gabriel Marques, mostra as facetas de algo proibido, algo que não se deve seguir em frente.

Abraçando a teoria que a letra narra algo impossível, vamos para Shakespeare e seu romance “Romeu e Julieta”. Encontramos nele um casal no qual suas famílias estão em constante guerra. Esse fator era para ser primordial e causar uma distância entre eles, mas mesmo assim não conseguem deixar de se relacionar.

A “contramão” no livro é o que não deve existir, é a quebra de tradição familiar de ambas as famílias. A vontade, o sentimento de estar um com o outro deixa tudo como motivo de razão, certa “lucidez”.

Fugindo da literatura e partindo para longe de Romeu e Julieta, temos outro exemplo que se encaixa perfeitamente na musica: O filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee, que narra a história de um casal gay em meados do século XX, numa sociedade preconceituosa que não estava preparada para a revolução sexual.

A “contramão” aqui também se repete com o motivo de “Romeu e Julieta”. A única diferença é que o casal Jack e Ennie está enfrentando tudo e todos (incluindo eles mesmos) para manter o relacionamento, problemático aos olhos sociais.

Cena do filme "O Segredo de Brokeback Mountain"

Cena do filme “O Segredo de Brokeback Mountain”

Segundo a letra, tudo que se está passando é uma fase e ela rapidamente vai embora. Pode ser até que seja, mas tanto o livro quanto o filme faz transbordar a sensação de que quem está atravessando por todo turbilhão de sentimentos enxerga tudo único e interminável. Essa contramão “entorpece de tesão” e faz parecer que tudo é válido, mesmo quando nos é pressuposto que não seja. Perde-se a noção de do certo e o errado. O que fica é a vontade de ser, querer, o desejo da alma.

Mesmo com as diferenças notáveis dos relacionamentos entre os casais (o de Shakespeare segue uma linha mais sonhadora enquanto o de Lee por uma fibra mais racional), ambas as histórias terminam de forma trágica. Romeu e Julieta morrem juntos quando percebem que não existe nada que possa fazer que suas famílias o aceitem. Jack morre de forma misteriosa fazendo Ennie se culpar eternamente por sua morte.

Cabe para o fim trágico a pergunta que existe dentro da musica. Romeu, Julieta e Jack foram “encontrados jogados e desmaiados, orgulho dilacerado espalhado pelo chão”. Mesmo com as suplicas de amor para os parceiros ficarem, para se cuidarem, o desfecho desastroso é inevitável.

Contramão não é só sobre amores proibidos, como a própria palavra diz, é ir ao lado oposto, que podemos dizer que seja da sociedade. É a vontade de burlar o sistema para fazer algo que se tem vontade e é taxado como errado. É a necessidade de encontrar razão nos seus atos, mesmo que os outros digam que é algo errado. É o motivo para continuar a viver, de achar uma razão para a vida.

O Alcoolismo no cinema de Cassavetes

Cena de “Uma Mulher Sob Influência”

Os vícios e o cinema sempre andaram de mãos dadas, mesmo que muitas vezes isso não fosse totalmente perceptível. Na visão moralista, o álcool (o assunto em questão) como um mal para a sociedade. Via-se o alcoolismo como uma doença social e alguns filmes tentavam mostrar essa visão, mesmo que caindo em contradição. Mas existiam aqueles que não viam os vícios como algo negativo, até mesmo acreditavam no oposto. John Cassavetes era um desses. Ator, diretor, roteirista e boêmio, considerado o pai do cinema independente americano, Cassavetes foi vanguardista e nadou contra a maré em vários aspectos cinematográficos, e também em questões sociais como os vícios, principalmente o álcool, sua paixão, que está sempre presente em todos os seus filmes.

Cena de “Farrapo Humano”, de Billy Wilder

Mesmo com o cinema da antiga Hollywood fazendo parecer que a bebida alcoólica fosse algo comum na sociedade, eles tentaram, as vezes, subir uma bandeira contra o álcool. O exemplo, talvez, mais grandioso desse movimento é o premiado Farrapo Humano, de Billy Wilder. Nele vemos um alcoólatra que machuca sem perceber as pessoas ao redor quando continua alimentando o seu vício. O filme é um bom exemplo de como o álcool pode fazer mal, mas é impossível não comparar com outras obras tão premiadas – e bem mais lembrados – do Wilder. Em Se Meu Apartamento Falasse o álcool é figura carimbada em todos os seguimentos importantes da fita assim como a obra-prima “Crepúsculo dos Deuses” onde a bebida é praticamente a engrenagem que move toda a trama, subliminarmente.

Todos esses dois filmes foram décadas depois de Farrapo Humano, e servem de exemplo para como o cinema foi se moldando para recebê-lo sua estrutura. Foi percebido que sem ele a sociedade não funciona como querem que ela funcione e é isso que Cassavetes tentou mostrar. Ele viu que é no álcool que as pessoas conseguem ser o que realmente são e passou a expressar isso em suas obras.

Cena da bebedeira em "Os Maridos"

Cena da “Os Maridos”

Se pararmos para analisar filme por filme da carreira de Cassavetes – como diretor – vamos perceber a desilusão que seus personagens vivem e a maneira bucólica que eles enxergam a vida. Eles estão tristes e vivem em constante melancolia, e usam o álcool como a única forma de aguentar a pressão que lhe são depositadas. Em “Faces” vemos um casal tentando manter um casamento que eles sabem que está em seu fim, usam o álcool para ser o que são e expressar suas vontades, mesmo que isso resulte em morte; Em seguida vem “Os Maridos”, onde três amigos em luto usam e abusam da substância para tentar superar a morte de um amigo e conseguir forças para tentar seguir em frente, aproveitando para usufruir por um curto espaço de tempo uma liberdade que eles sabem que não será duradoura; Já os dois filmes depois desse (“Assim Falou o Amor” e Uma Mulher Sob Influencia”) o casamento volta a ser o assunto principal (para completar a trilogia do casamento junto com “Faces”) e mostrar o amor usando novamente a bebida para tentar superar os problemas conjugais e até extraconjugais.

Em “Noite de Estreia” vemos uma Gena Rowlands em crise de meia idade. Ela não sabe para onde vai, nem o que fazer e o sua única forma de tentar expressar isso é afogando suas mágoas e medo em um copo cheio. Talvez ela seja a figura de Cassavetes que, mesmo com toda a fama e todo dinheiro, não consegue achar seu lugar no mundo e não consegue entender sua existência.

Cena de “Amantes”

“Amantes” é o testamento de Cassavetes, seu verdadeiro ultimo filme (Big Trouble não foi originalmente um projeto seu) onde toda sua carreira esta ali, em 141 minutos de puro porre e mal estar – que não enfraquece nem um pouco a obra. Cassavetes morreu por conta de seus vícios, mas não que ele tenha sido um alcoólatra ou um viciado em drogas. Se assistirmos os suas películas (como diretor e até alguns só atuando) vamos perceber que todos os seus personagens bebem exageradamente. O mais visível de todos é Robert de Amantes. Nele, Cassavetes bebe sem se preocupar com o amanhã; faz crianças beberem sem se preocupar com o moralismo social e faz tudo que sente vontade quando esta no efeito do álcool. Em Amantes, ele não é um personagem como foi em “Os Maridos”, “Assim Falou o Amor” e “Noite de Estreia”, ali é ele mesmo (não alter ego como gostam de chamar) tentando se encontrar no fundo de um copo de bebida, tentando se entender, tentando buscar o sentido de sua vida.

O álcool no cinema de Cassavetes é o vício que todos temos. Não que seja só a bebida, existem outros vícios que possuímos e possuiremos. O que Cassavetes tenta mostrar em sua obra é que nós estamos doentes enquanto sociedade e nós escondemos atrás de coisas que deveriam nos deixar protegidos, mas nos deixam mais vulneráveis do que somos, e que nada disso vai adiantar se nós não soubermos quem somos e para onde vamos. O cinema de Cassavetes é isso: a busca de si mesmo. Todos os protagonistas estão perdidos dentro de si e não sabem para onde andar, e logo começam a andar em círculos, logo começam apenas a existir.