Pontypool, de Bruce McDonald

pontypool

Está comprovado que a palavra Digital é a mais complexa que existe. Tão incompreensível na mesma proporção que é completa. Já olharam ela no dicionário? Até quando ela foge do seu conceito literário e tenta se traduzir em imagens sua compreensão segue sem sentido aparente. Ela carrega o futuro dentro de sua sintaxe. É possível ver o que nos reserva quando ela é realmente compreendida. Uma nova era toda dentro de apenas sete letras. Uma máquina binária de perfeição orquestral. Essa palavra precisa ser dita e todos possam compreender que no futuro só existirá os números.

(Última gravação do pesquisador linguista José da Silva antes de ser encontrado morto em circunstâncias misteriosas)

Olhos de Serpente, de Abel Ferrara

Dangerous Game

É de se notar que em meados de Dangerous Game a narrativa se auto-explode quando ela própria se compreende inútil por estar tentando seguir uma linearidade. O que antes era visto em uma ordem cronológica, do filme que está a sendo filmado, agora passa a acompanhar fragmentos de uma história dissonante. O diretor ora se faz onipresente, ora se torna personagem em seu próprio filme. A busca pela compreensão (coisa inútil de se fazer nos filmes extremos do Ferrara) não faz mais sentido. O que se quer aqui é apenas e exclusivamente sentir.

A fita é toda sobre a obsessão de um homem pela sua arte. Ele está tão determinado a ser real que tudo ao seu redor vira uma ficção que se confunde com a existência. As drogas que eram para ser falsas se tornam reais; o álcool que era para ser água vira combustível de uma locomotiva humana de destruição em massa; o sexo gratuito não sabe se é necessário se fazer gráfico ou subjetivo.

Poucos cineastas conseguiram transpor a metalinguagem de forma tão avassaladora para a tela como Ferrara consegue. Se temos em Cassavetes uma verdadeira Tour de Force da decadência de uma mulher em Noite de Estréia – onde Gena Rowlands se confunde até se perder na atriz que interpreta – em Dangerous Game o diretor também se perde, só que numa busca obsessiva por uma verdade que parece não existir.

Seria o amor? Ou apenas um vício? Quando Herzog aparece na tela ele não dá muitas respostas para o que o diretor e nós estamos procurando e/ou tentando entender, apenas a certeza de que estamos trabalhando com obsessão, a matéria-prima do diretor alemão.

Seria essa obsessão pela realidade? Pois no começo somos apresentados a um filme que se transveste de real para que no fim estejamos diante de algo real que está no filme. E tentar reviver toda a trama na memória é tão confuso quanto tentar entender o que se sente. Mesmo as cenas sendo como tinta permanente na mente, onde quase todas são marcantes e lembrantes, nada parece fazer sentido. E tentar explicar o que foi visto sempre soará um ato falho e castratório.

A única coisa que podemos concluir disso tudo é que muitos ousaram em se aventurar em tramas que discutem o ato de fazer filme, mas poucos conseguiram fazer como Ferrara e transformar a metalinguagem como o ato de se fazer filme.

The Invitation, de Karyn Kusama

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Compreender uma narrativa as vezes se torna uma necessidade ‘desnecessária’ em um cinema de gênero que busca sensações intensas e marcantes. Para ser um pouco radical, acredito que o verdadeiro e bom cinema de gênero coloca a compreensão – tão procurada por telespectadores habituados com um cinema mais generalizado – por ultimo numa escala de prioridades.

Desde os primeiros minutos de The Invitation começa-se a perceber que tentar traçar uma linha imaginária para entender seu enredo é um ato fadado ao fracasso. Por quê? Pelo simples motivo que um verdadeiro horror não é aquele que se faz assustar com os famigerados jump scary e sim aquele que nos joga para o meio do incompreensível, nos deixando com medo daquilo que está muito além de nossa compreensão.

Nos minutos finais de O Bebê de Rosemary – aqueles que sua provável loucura está mais latente – o telespectador que se via dividido entre acreditar nela ou em todos ao seu redor acaba que cedendo e aceita um tipo de gravidez psicológica – sim, Polanski nos engravida – e passa a ver tudo pela perspectiva da protagonista.

The Invitation segue o mesmo tipo de terror psicológico que o clássico dirigido por Roman Polanski, só que a única diferença é que Karyn Kusama não cansa de nos pregar (boas) peças, o que ocasiona numa confusão tão atordoante que nos vemos sem escolhas e acabamos por adentrar na mesma bad trip que o protagonista aparenta estar – sempre variando entre alucinações palpáveis e um mal-estar angustiante.

O mais curioso é que acabamos nos tornando masoquistas diante dessa montanha-russa de sentimentos que deveriam nos ser incomodos. Talvez pela relação que conseguimos criar com os personagens ou uma simples curiosidade mórbida de um desfecho, não dar para saber. A unica certeza que se pode ter é da catarse de sensações que o ultimo ato nos proporciona, fazendo com que compreendamos como o cinema de gênero independente merece tanto a nossa atenção.

Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

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Na clara simetria de um comércio destrutivo, segue a reflexão de um cinema que se faz em cima de incertezas e não se torna, em nenhum momento, frágil quanto a isso. Se torna forte quando se faz desnecessário para muitos.

Doce Amianto (não tão diferente dos seus irmãos do coletivo cearense Alumbramento) racha a necessidade de uma identidade nacional para o cinema. Se temos agora, em pleno século XXI, um cinema que busca, com fervor, uma identidade e um reconhecimento, percebe-se neste exemplar essa necessidade se tornando prolixa.

O que Guto Parente e Uirá dos Reis acabaram fazendo foi um filme maldito. Primeiramente por não se importar em desviar de uma linearidade narrativa que seja cronológica. O roteiro recebe um verdadeiro poder de viajar no tempo, cuspindo nos padrões estabelecidos por D. W. Griffith, nos confundindo entre delírios, flashbacks e flashforward que não se explicam – e nem sentem necessidade disso. E com tudo isso, quase que diretamente, quebra o conceito de realidade composta pelo cinema do neorrealismo, que acabou se tornando dogma para os filmes que buscam um cunho independente.

A produção cearense, com todos esses pontos, se torna incoerente demais para ser aceito no círculo comercial e “lúdico” demais para poder adentrar na cena independente. Um filme sem tribos, sem amigos. É o cinema brasileiro finalmente quebrando a necessidade de política para abraçar a necessidade de se fazer imagem pelo mero prazer de eternizar aquilo que não precisa ser eternizado, mas se tem vontade disso.

Doce Amianto é a imagem que existe apenas para existir, como objeto da esquizofrenia do imaginário coletivo. Para causar sensações.

É a imagem sendo imagem, apenas isso.

4/5

Filme Jardim Atlântico, de Juca Capela

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Transcendendo tudo que já passou por aqui, vamos percebendo o caminho obscuro que o cinema brasileiro vai traçando com certas produções de caráter duvidoso. É um tanto assustador ver um cinema – onde surgiram tantas pérolas – que as obras a receberem mais atenção do publico são as que nada acrescenta para a cultura nacional e só servem para aumentar o nível de vergonha da nação.

Jardim Atlântico  no enquanto, é um caso à parte. Pode ser confundido no meio da lama, mas a sua fonte é totalmente cristalina. É uma declaração de amor ao Brasil da forma que nos acostumamos a amá-lo: politicamente incorreto. Passeamos por nossa cultura ao mesmo tempo que vamos percebemos que precisamos nos agregar da cultura dos outros para criar nossas própria identidade. Aqui não tem mais o medo de se utilizar do que é de “fora”. É tudo usado da forma mais descarada possível – não que isso seja algo ruim.

O destaque fica por conta da sua excelente trilha sonora. Momentos musicais de beleza singular que são acompanhados de uma certeira direção do Capela, ligando-se a um jogo com o cinema, onde bebe da fonte de filmes de vanguarda até os clássicos intocáveis – como Alain Resnais, Godard, Win Wenders e até Kubrick.

Desde Bang Bang (em meados do cinema marginal) não se via tamanha força/necessidade de revolução dentro de um filme brasileiro. É a necessidade de crescer, de ser notado, ser visto daquela nação. Como no belo plano sequencia ao som de Aquarela do Brasil: o passado se juntando com presente; o tradicional com a modernidade. Tudo isso para mostrar que o Brasil é pra mim, pra você, pra todos nós.

4/5

Feliz Natal, de Selton Mello

Fugindo do seu passado e de todas as lembranças que habitam nele, Selton Mello tenta criar em seu primeiro longa-metragem sua libertação, de uma vida que não parece lhe trazer orgulho, que parece o deixar amargurado.

Partindo para a guerra conta si mesmo, Selton precisa matar sua persona, o diretor precisa executar o ator. A única arma disponível em suas mãos é a câmera. Ao contrário de como foi usada anteriormente em si, a forma de maneja-la é explorando a “mise-en-scène”. Existem planos-sequencia, exploração de espaços, de movimentos. No entanto, o que está mais evidente no longa é a câmera que conversa com os personagens e com os seus sentimentos. Ela os persegue e expõe tudo aquilo que tentavam esconder. Vulgariza-os e os deixam sem chão, sem dignidade.

A forma do diretor de usar a “mise-en-scène” lembra vagamente o cinema de Cassavetes, onde sua câmera se fazia presente como membro do elenco e os personagens a acompanhavam como se fossem amigos de longa data. Entretanto, diferente de Cassavetes, Selton falha em exagerar na utilização da técnica e sentimos falta (nem que seja um pouco) de refinamento estético na obra.

Selton usaria novamente a fabula do filho pródigo (provavelmente que inspirou o roteiro de Feliz Natal) anos depois em seu segundo longa ‘O Palhaço’, onde ele, mais uma vez, tenta se desprender da persona que foi criada ao seu redor, só que dessa vez passando para frente da câmera (essa ultima sem tanto nervosismo e mais estilizada) e interpretando um palhaço e o dilema de sua felicidade, usando isso como simbolismo de si próprio.

Feliz Natal está longe de ser perfeito, mas possui ótimos momentos e ótimas escolhas parte da direção. Só nos resta torcer para que Selton Mello – em seus próximos projetos – entregue mais um filme satisfatório e que consiga o que tanto deseja: o esquecimento do seu passado.

3/5

Kassin+2 – Futurismo (2006)

O Brasil é um misto de maracatu, as vezes tem um samba de preto velho e uns ritmos variados. É um liquidificador musical, artístico, criativo. E não é só agora que é assim, a história musical dessas terras tupiniquins são recheadas de maravilhas deliciosas para os ouvidos das cabeças abertas. Tivemos de tudo um pouco e mais um bucadinho e parece que sempre aparece mais um com algo novo por baixo da manga. É o Brasil, tão odiado e ao mesmo tempo tão amado.  A terra dos Mutantes e sua psicodelia hipnotizante, Tom Zé e seu surrealismo transcendental e os Novos Baianos e sua simplicidade transformadora. E quando achamos que não apareceria nada de novo, eis que surge uma galera para nos provar o contrário. X+2 (Moreno, Domenico e Kassin) são músicos que resolveram se reunir e fazer três discos com cada um no comando. O terceiro, e ultimo, Futurismo foi o projeto do Kassin. Um disco transformador, transcendental e hipnotizante, não necessariamente nessa ordem. Não tem estilo, é o futuro junto com o passado se tornando presente. É a simplicidade abraçada com a complexidade. É o saudosismo entrelaçado com a tecnologia. E eles não sentem medo de experimentar, não sentem medo de brincar, de se divertir e é isso que o disco a todo o momento passa. Como foi feito com amigos, o disco é uma reunião harmoniosa que não se preocupa de seguir um estilo musical ou uma ordem, o que surgiu é o que surgiu e não tem nada melhor que o que é feito com espontaneidade, à vontade. Pode parecer assustador uma musica calma seguida de uma experimentação eletrônica e logo depois um rock indo pro lado industrial, mas é isso que o disco quer expressar, como diz na sua faixa título “Mas se você quiser meditar no futurismo/E tudo o que deixamos passar sem se importar”, e realmente, eles não se importam se não é comercial ou se é todas as misturas são surreais, o que importa é que tudo aquilo ali é “uma brincadeira delirante” [e prazerosa].

4/5