Lucy, de Luc Besson

Lucy

Ainda é possível garimpar o cinema pipocão e encontrar em seu meio obras que sejam justificadas em seu formato e na sua narrativa. Existem os mais radicais que acreditam que o cinema caminha para o limbo da arte que se afoga em suas próprias necessidades de grandeza. Se temos os gêneros depreciados da literatura junto com os ritmos humilhados da musica, existe no cinema os estilos desprezado pela massa que se diz entendedora. Essa percepção da “baixa” arte (especificamente no cinema) é responsável pela preconcepção de obras que nem tivemos o prazer (ou desprazer) de assistir. Por outro lado, essa sensação de eterno engodo é o que torna alguns filmes mais fortes quando vamos assisti-los.

Quem, talvez, tenha se aproveitado dessa sensação surpresa nesse fraco ano foi Luc Besson com o seu Lucy. Lotando as salas de cinema dos shoppings com uma sinopse grudenta e clichê como grade parte dos filmes que surgem no fim de todo mês.

Ele choca quando, ao final, temos a percepção de uma sala cheia ficou ali para vê-lo, um filme que se utiliza de uma narrativa que não sente medo de inovar, usando e abusando de cortes bruscos e uma linguagem que beira ao psicodelismo.

Mas o que é bom frisar no longa é a inteligência do diretor em fazer análises bem perspicazes do cinema como linguagem.

Na primeira análise temos a compreensão da maldição que a imagem pode nos proporcionar. Imagem é passado e passado é memória. Lucy, depois de ter 100% de sua mente ativada, se torna fria, atordoada. Essa tristeza profunda pode ser compreendida logo no início da fita quando, em um momento de hesitação, a mesma liga para a mãe. Um diálogo curto, mas onde é possível perceber a declaração de compreensão e maldição que Lucy, agora, carrega dentro de sim depois que se tornou um museu de memórias vivas.

O segundo – e mais direto – momento que Besson analisa o cinema é já perto do fim do filme, quando Lucy usa uma tela em formato cinematográfico para explicar a existência. É a compreensão que mesmo com a musica, a literatura, apenas o cinema é a arte que se faz completa, e é capaz de prever o passado, para que entendamos o nosso presente para compreender o futuro.

O que diferencia Lucy dos outros filmes do gênero é a sua (seja ela ou o filme) compreensão como ser finito, sabendo a hora de chegar como a de partir. Cabe, aqui, também a compreensão da liberdade que o cinema pode proporcionar: por que não fazer levitar, desmaiar e criar paredes invisíveis?

Lucy de Besson é um elegia a cinefilia, se entende como cinema e é enxuto, e preciso.

4/5

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O Diabo Provavelmente

Não precisamos queimar as pestanas para chegar à conclusão que o mundo é um lugar sem nexo e sem motivos para continuar a existir. A ganancia é mais importante, o dinheiro domina e nossos esforços nunca são os bastante. Charles está ciente disso e não consegue entender porque existir em um mundo como esse, onde seus valores não fazem a menor importância para os outros. Ele percorre as ruas de Paris sem rumo, sem vida e sem nenhuma expectativa. O amor não tem mais sentido, mesmo sendo amado, ele não consegue amar. Só consegue ver a crueldade e a maldade do ser humano, seja com a natureza ou com sua própria espécie. Sua única vontade é morrer, deixar de existir e mesmo que seus amigos façam de tudo para tentar ajuda-lo, eles, e ele, sabem que não adianta medir os esforços e tentar mostrar a vida para quem está morto em alma.

Robert Bresson criou um filme de horror moderno, atual e assustador. Charles vaga por Paris a procura de algum motivo para continuar a existir, e a câmera de Bresson faz questão de acompanhar cada passo depressivo de um rumo, onde o fim quanto mais longe fica mais doloroso é existir.

Não importa em que época seja visto e quem veja, ‘O Diabo, Provavelmente’ é um filme real que nos faz perceber o quanto somos vazios e o quanto somos inúteis de continuar a viver.

4/5