Violência Gratuita, de Michael Haneke

O conformismo social é algo que já faz parte de nosso dia-a-dia e pode ser muito bem visto (e expresso) no cinema. Nós queremos que o filme seja daquele jeito e que acabe com aquele final para que saiamos satisfeitos da sessão. É nesse costura-costura que nossos cinemas estão recheados de produções que se repetem e só mudam os nomes relacionados. Sejam histórias de amor, ação, guerra, drama, todos já possuem uma padronização, um tipo de medida que tem que ser seguido para que aquele filme seja considerado um “verdadeiro filme” do gênero.

Um grande exemplo de gênero que se perdeu nessa padronização são os filmes que exploram a violência. O que antes causava repúdio perante o publico agora se tornou algo “moderno” e “vanguardista” e o telespectador se mostra maravilhado com as cenas violentas como se estivessem assistindo uma comédia ou até mesmo um filme de ação eletrizante. Mas quebrando todos esses padrões, surge Funny Games de um diretor alemão que parece que quer fazer um verdadeiro filme violento e que fuja dos padrões cinematográficos.

O que faz a violência de Funny Games ser “repugnante” para quem assiste é que ela não é apenas uma violência física, é uma violência psicológica que, querendo ou não, acaba mexendo com quem está assistindo. Vemos uma família vulnerável a dois sádicos que não demonstram nenhum interesse em nada material e só no prazer de ver o próximo morrer. Essa é uma das quebras de padrões dos filmes violentos que estamos acostumados a assistir. Sempre a violência é gerada por vingança ou ganancia e aqui estamos diante da pura diversão, do puro prazer. É revoltante em todo o momento a vitória do mal (Até rebobinar a fita – literalmente – o diretor faz para que ele vença), porque estamos sempre acostumados em ver o bem ou a justiça ganhar. É mais revoltante ainda ver que todas as artimanhas dos filmes do gênero não funcionam aqui (a faca escondida no bote, a arma na casa vizinha…) e nós sentimos como o pai da família: impotente.

Para piorar ainda a situação, o diretor nos faz cumplices do mal. É constante um dos loucos olharem para a câmera pedindo nossa opinião ou dando uma simplória piscada de olhos. Alguns acham que isso é a quebra de “ficção” que Haneke faz para que nós percebamos que aquilo ali é um filme. Acho o contrário. Quando esses momentos acontecem são para que o telespectador sinta mais repulsa e ódio por toda aquela situação que mais parece uma brincadeira de mau gosto do diretor para todos nós.

Com Funny Games, Haneke consegue causar o ódio e a repulsa de todos que assistem esperando apenas um filme costurado e bem padronizado. Com esse filme ele quer que nos pensemos no que realmente é o cinema e se ele realmente foi feito para nos agradar. Se pegarmos o nome original e traduzimos ao pé da letra vamos ver que os Jogos Divertidos (Funny Games) não são dos personagens psicopatas contra uma família e sim do diretor contra nós, os telespectadores.

4/5