Z – A Cidade Perdida, de James Gray

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Para começar a falar de James Gray e especificamente de Z, seu ultimo filme, preciso confessar que como cinéfilo sempre tento ver western em tudo e estou em busca da narrativa perfeita.

Dadas as devidas proporções do problema, vamos por partes.

Z como um Pós-Western

Desde o começo de sua carreira, Gray decidiu se aventurar pelos policiais, gênero que é delicioso para uns e decadente para outros. Policiais acabam sendo os western modernos que só as armas e os desejos de liberdade permanecem enquanto que todo o resto da estética toda se transmuta. O cinema policial de Gray evoca, acima de tudo, a busca dela redenção pessoal tentando sair vivo das consequências dos erros do passado. Não chegaria a ser muito bruto trocar os carros por cavalos nem o urbano pelo rural, já que nesses dois tipos de cinema a lei é algo que não existe como deveria existir.

Logo após os filmes para esse gênero, Gray se aventurou nos dramas e com isso acabou compreendendo que o cinema é um sistema de transição, desapego. Pulando Amantes (compreendendo que se trata de um dos seus melhores filmes) vemos que ele resolveu se aventurar pelo classicismo dos filmes de época, mais especificamente aqueles que acompanham a transição para a época que conhecemos como moderna.

O que Era uma Vez em Nova York e Z têm em comum é que ambos são de uma época após o que o cinema retrata em western. Os carros estão surgindo, os cavalos aos poucos desaparecem.

Gray parece ter sentido que fazer western policiais já não o satisfaria mais porque ele queria ir além. Ele queria saber o que vinha depois, criar em cima do que realmente aconteceu, ser capaz de ser artificializar sem perder a vida.

Mas o lirismo de western é mantido, porque Gray compreende que o lirismo narrativo do gênero é algo que nunca deve-se realmente desapegar.

Z como narrativa perfeita

Tempos atrás sempre vi Zodíaco de David Fincher como o filme que consegue ter a melhor narrativa moderna do cinema. Muito dessa perfeição que vejo é muito além da forma de retratação da época que a direção de arte conseguiu fazer. Vem muito de conseguir transpor com naturalidade a realidade da época. Em Zodíaco temos os anos 70 trabalhados principalmente nos estereótipos que temos da época sem em nenhum momento soar desrespeitoso. O que Gray consegue é exatamente o que Fincher conseguiu fazer na sua obra-prima, mas conseguindo ir além e transformar os personagens no que eles realmente significam na época. Sem que em algum momento isso soe destoante com a época que os que assistem estão vivendo.

Os personagens em nenhum momento soam preconceituosos com questões que hoje estamos esclarecidos e sabemos que naquele momento do tempo não. Os personagens são produtos daquilo que está sendo retratado da época, e em nenhum momento nos deixa se distanciar do filme e daquela história que está sendo contado.

Mas sem esquecer que esse faz parte daqueles tipos de filmes no futuro vamos nos questionar se no atual seria produzido. Werzog tem seu Fritzcarraldo. David Lean tem seu A Filha de Ryan. E agora James Gray tem o seu com Z. São filmes que ultrapassam a linha do épico e partem para algo bem além disso, beirando entre o amor prazeroso e a obsessão destrutiva.

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James Gray sem sombra de dúvidas é o herdeiro direto do cinema clássico americano. Ele precisa se aventurar pelo cinema independente para conseguir o primordial para todo artista que é finalizar, mas sua herança está começando a gritar dentro de seu peito e seus filmes na medida que estão sendo lançados estão deixando isso mais claro.

Christine, de Antonio Campos

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Ser um diretor é indagar a todo momento se seu filme se faz necessário. É estar sempre se questionando sobre o que realmente está sendo feito durante todo o processo de criação. É se perguntar se realmente as imagens que estão sendo feitas ali são realmente devidas. Vendo Christine, do Antonio Campos, acabei me permitindo sentir esses pensamentos que são de exclusividade do diretor. Não só por se tratar de uma história que eu já sabia onde iria acabar, nem também pela sensação de curiosidade de como ela iria ser contada, mas simplesmente pela obsessão coletiva que foi criada diante da persona principal. Christine Chubbuck acabou se tornando um dos mitos mais intrigantes da era moderna. O seu suicídio ao vivo se tornou meio que objeto de uma curiosidade mórbida de todos aqueles que sempre quiseram (mentiria quem negar que nunca tivera curiosidade ou até tentou procurar o vídeo na rede) assisti-lo.

Acabou que a conclusão de que as imagens são inexistentes tornou-se uma frustração coletiva e o surgimento desse filme do Campos acaba sendo uma corajosa e ousada necessidade de criar a imagem que todos sempre quiseram ver. O que torna Campos corajoso é querer contar uma história tendo por base um suicídio, sendo isso também o que o torna ousado, se utilizando de escolhas que o fazem a todo momento andar por um caminho de ovos, onde a qualquer momento o controle do seu carro pode cair num precipício.

O mais divertido disso tudo é perceber que tanto faz se Christine é um filme bom ou ruim, ou se o roteiro perde muitas vezes a oportunidade de ficar calado (?). Ele é um filme que está fadado ao ostracismo se for buscar abrigo nos braços do seu público alvo, e longe de ser aclamado por quem desconhece a história e acabar entrando de gaiato no navio.

Como artista de um só sucesso, Christine faz por cima de uma só cena, aquela que todos estavam esperando desde a lida da sinopse na fila do cinema ou anos lendo blogs/fóruns sobre teoria da conspiração. O que poderia ser uma prisão acaba sendo libertador pois as imagens que serão recriadas só aconteceram, ou seja, não existem de verdade, então passarão a existir pela primeira vez.

Campos pode muito bem ser mais um daqueles que estavam compartilhando informações e conversando sobre Chubbuck em fóruns ou em comentários de blogs, um obsessivo tão louco que precisava que as imagens fossem reais, que elas existissem, e então ele decidiu ele mesmo as criar, pois não aguentava perceber que continuava a espera para ver um vídeo que ninguém realmente precisa assistir.

Conclusões de 2016

Gosto de listas. Queria começar com essa afirmação porque muitas vezes falamos que listas não são legais, mas no fundo sentimos e sabemos que estamos mentindo. Escolher por mais doloroso que seja é muito divertido. É uma sensação de arriscar e dar a cara a tapa de uma forma tão intensa que chega a parecer o mesmo sentimento de adrenalina. Fazer listas todos os finais de ano acaba sendo um ritual necessário (pelo menos para mim) por alimentar essa inconsequência de se arriscar sem perder nada com isso. Sempre que faço essa lista acabo finalizando com uma menção honrosa que acaba sendo entregue para a sessão que mais me marcou naquele determinado ano. Esse ano, por mais que tenha tido várias sessões marcantes, não tive nenhuma como tive ano passado com Fantasia e Mad Max no São Luiz, nem no ano que o antecede que entreguei todas as minhas honras para Rocky Horror Picture Show – por incrível que pareça também no São Luiz. A sessão desse ano foi no meu quarto, na madrugada da véspera do ano novo. Sem nenhum luxo, com nenhuma cerimônia. E com a lista do ano já finalizada. Pode não ser o melhor filme do ano, mas todas as suas qualidades o colocam ele facilmente figurando entre por entre os que são melhores que ele. Hell or High Water é um western, se analisado detalhadamente pode ser até adentrar naquilo que Bazin chamou de gênero americano por excelência. Não duvido, mas é com ele que, enfim, entrego minha lista dos melhores filmes que povoaram esse turbulento e decisivo ano:

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  1. O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
  2. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  3. Toni Erdman, de Maren Ade
  4. Academia das Musas, de José Luis Guerín
  5. Hell or High Water, de David Mackenzie
  6. A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha
  7. A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa / Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira
  8. Carol, de Todd Haynes
  9. O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho
  10. A Bruxa, de Robert Eggers / Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler

Sexo, Mentiras e Videotape

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O poder da retrospectiva é uma ferramente interessante para quem se importa ou involuntariamente acaba refletindo sobre o cinema e os caminhos que a linguagem acaba sempre percorrendo para tentar se reinventar. Ver hoje pela primeira vez (em plena globalização, no ano de 2016) o debute de Steven Soderbergh para o cinema é interessante se colocarmos em panorama o contexto que ele estava inserido no ano de seu lançamento, em 1989. O cinema independente americano acabava de perder seu maior expoente, John Cassavetes, que por si só já poderia ser considerado o fim de um ciclo de rompimentos de barreiras do ‘fazer cinema’ em Hollywood que acontecia desde 1959, quando Cassavetes lançou seu primeiro longa e foi responsável pelo período mais frutífero do cinema independente americano. O ultimo grande filme de Cassavetes, Amantes, foi lançado 5 anos antes, em 1984, e Sexo, Mentiras e Videotapes ganhar a palma de ouro em Cannes no ano da morte do pai do cinema independente americano pode simbolizar a passagem de bastão para que Soderbergh pegasse as rédias do movimento e desse um rumo para ele. Infelizmente não foi isso que aconteceu e logo nas produções posteriores Soderbergh cambaleou para as grandes produções e abandonou o cinema independente que deu o gerou. Agora, desacreditado do cinema, se voltou para as produções televisivas e alimenta a alcunha de “ex-cineasta”. Enquanto o movimento independente americano se manteve vivo durante todos esses anos – mesmo que sempre beirando ao ostracismo – em nomes como Jim Jarmusch ou em pequenos movimentos jovens como o Mumblecore, oriundo do começo do novo milênio, responsável por nomes que até hoje mostram que o cinema independente sempre vai existir enquanto pessoais quiserem dizer algo significativo sem que seja preciso vender a alma.

Pontypool, de Bruce McDonald

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Está comprovado que a palavra Digital é a mais complexa que existe. Tão incompreensível na mesma proporção que é completa. Já olharam ela no dicionário? Até quando ela foge do seu conceito literário e tenta se traduzir em imagens sua compreensão segue sem sentido aparente. Ela carrega o futuro dentro de sua sintaxe. É possível ver o que nos reserva quando ela é realmente compreendida. Uma nova era toda dentro de apenas sete letras. Uma máquina binária de perfeição orquestral. Essa palavra precisa ser dita e todos possam compreender que no futuro só existirá os números.

(Última gravação do pesquisador linguista José da Silva antes de ser encontrado morto em circunstâncias misteriosas)

Olhos de Serpente, de Abel Ferrara

Dangerous Game

É de se notar que em meados de Dangerous Game a narrativa se auto-explode quando ela própria se compreende inútil por estar tentando seguir uma linearidade. O que antes era visto em uma ordem cronológica, do filme que está a sendo filmado, agora passa a acompanhar fragmentos de uma história dissonante. O diretor ora se faz onipresente, ora se torna personagem em seu próprio filme. A busca pela compreensão (coisa inútil de se fazer nos filmes extremos do Ferrara) não faz mais sentido. O que se quer aqui é apenas e exclusivamente sentir.

A fita é toda sobre a obsessão de um homem pela sua arte. Ele está tão determinado a ser real que tudo ao seu redor vira uma ficção que se confunde com a existência. As drogas que eram para ser falsas se tornam reais; o álcool que era para ser água vira combustível de uma locomotiva humana de destruição em massa; o sexo gratuito não sabe se é necessário se fazer gráfico ou subjetivo.

Poucos cineastas conseguiram transpor a metalinguagem de forma tão avassaladora para a tela como Ferrara consegue. Se temos em Cassavetes uma verdadeira Tour de Force da decadência de uma mulher em Noite de Estréia – onde Gena Rowlands se confunde até se perder na atriz que interpreta – em Dangerous Game o diretor também se perde, só que numa busca obsessiva por uma verdade que parece não existir.

Seria o amor? Ou apenas um vício? Quando Herzog aparece na tela ele não dá muitas respostas para o que o diretor e nós estamos procurando e/ou tentando entender, apenas a certeza de que estamos trabalhando com obsessão, a matéria-prima do diretor alemão.

Seria essa obsessão pela realidade? Pois no começo somos apresentados a um filme que se transveste de real para que no fim estejamos diante de algo real que está no filme. E tentar reviver toda a trama na memória é tão confuso quanto tentar entender o que se sente. Mesmo as cenas sendo como tinta permanente na mente, onde quase todas são marcantes e lembrantes, nada parece fazer sentido. E tentar explicar o que foi visto sempre soará um ato falho e castratório.

A única coisa que podemos concluir disso tudo é que muitos ousaram em se aventurar em tramas que discutem o ato de fazer filme, mas poucos conseguiram fazer como Ferrara e transformar a metalinguagem como o ato de se fazer filme.

The Invitation, de Karyn Kusama

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Compreender uma narrativa as vezes se torna uma necessidade ‘desnecessária’ em um cinema de gênero que busca sensações intensas e marcantes. Para ser um pouco radical, acredito que o verdadeiro e bom cinema de gênero coloca a compreensão – tão procurada por telespectadores habituados com um cinema mais generalizado – por ultimo numa escala de prioridades.

Desde os primeiros minutos de The Invitation começa-se a perceber que tentar traçar uma linha imaginária para entender seu enredo é um ato fadado ao fracasso. Por quê? Pelo simples motivo que um verdadeiro horror não é aquele que se faz assustar com os famigerados jump scary e sim aquele que nos joga para o meio do incompreensível, nos deixando com medo daquilo que está muito além de nossa compreensão.

Nos minutos finais de O Bebê de Rosemary – aqueles que sua provável loucura está mais latente – o telespectador que se via dividido entre acreditar nela ou em todos ao seu redor acaba que cedendo e aceita um tipo de gravidez psicológica – sim, Polanski nos engravida – e passa a ver tudo pela perspectiva da protagonista.

The Invitation segue o mesmo tipo de terror psicológico que o clássico dirigido por Roman Polanski, só que a única diferença é que Karyn Kusama não cansa de nos pregar (boas) peças, o que ocasiona numa confusão tão atordoante que nos vemos sem escolhas e acabamos por adentrar na mesma bad trip que o protagonista aparenta estar – sempre variando entre alucinações palpáveis e um mal-estar angustiante.

O mais curioso é que acabamos nos tornando masoquistas diante dessa montanha-russa de sentimentos que deveriam nos ser incomodos. Talvez pela relação que conseguimos criar com os personagens ou uma simples curiosidade mórbida de um desfecho, não dar para saber. A unica certeza que se pode ter é da catarse de sensações que o ultimo ato nos proporciona, fazendo com que compreendamos como o cinema de gênero independente merece tanto a nossa atenção.