Christine, de Antonio Campos

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Ser um diretor é indagar a todo momento se seu filme se faz necessário. É estar sempre se questionando sobre o que realmente está sendo feito durante todo o processo de criação. É se perguntar se realmente as imagens que estão sendo feitas ali são realmente devidas. Vendo Christine, do Antonio Campos, acabei me permitindo sentir esses pensamentos que são de exclusividade do diretor. Não só por se tratar de uma história que eu já sabia onde iria acabar, nem também pela sensação de curiosidade de como ela iria ser contada, mas simplesmente pela obsessão coletiva que foi criada diante da persona principal. Christine Chubbuck acabou se tornando um dos mitos mais intrigantes da era moderna. O seu suicídio ao vivo se tornou meio que objeto de uma curiosidade mórbida de todos aqueles que sempre quiseram (mentiria quem negar que nunca tivera curiosidade ou até tentou procurar o vídeo na rede) assisti-lo.

Acabou que a conclusão de que as imagens são inexistentes tornou-se uma frustração coletiva e o surgimento desse filme do Campos acaba sendo uma corajosa e ousada necessidade de criar a imagem que todos sempre quiseram ver. O que torna Campos corajoso é querer contar uma história tendo por base um suicídio, sendo isso também o que o torna ousado, se utilizando de escolhas que o fazem a todo momento andar por um caminho de ovos, onde a qualquer momento o controle do seu carro pode cair num precipício.

O mais divertido disso tudo é perceber que tanto faz se Christine é um filme bom ou ruim, ou se o roteiro perde muitas vezes a oportunidade de ficar calado (?). Ele é um filme que está fadado ao ostracismo se for buscar abrigo nos braços do seu público alvo, e longe de ser aclamado por quem desconhece a história e acabar entrando de gaiato no navio.

Como artista de um só sucesso, Christine faz por cima de uma só cena, aquela que todos estavam esperando desde a lida da sinopse na fila do cinema ou anos lendo blogs/fóruns sobre teoria da conspiração. O que poderia ser uma prisão acaba sendo libertador pois as imagens que serão recriadas só aconteceram, ou seja, não existem de verdade, então passarão a existir pela primeira vez.

Campos pode muito bem ser mais um daqueles que estavam compartilhando informações e conversando sobre Chubbuck em fóruns ou em comentários de blogs, um obsessivo tão louco que precisava que as imagens fossem reais, que elas existissem, e então ele decidiu ele mesmo as criar, pois não aguentava perceber que continuava a espera para ver um vídeo que ninguém realmente precisa assistir.

Conclusões de 2016

Gosto de listas. Queria começar com essa afirmação porque muitas vezes falamos que listas não são legais, mas no fundo sentimos e sabemos que estamos mentindo. Escolher por mais doloroso que seja é muito divertido. É uma sensação de arriscar e dar a cara a tapa de uma forma tão intensa que chega a parecer o mesmo sentimento de adrenalina. Fazer listas todos os finais de ano acaba sendo um ritual necessário (pelo menos para mim) por alimentar essa inconsequência de se arriscar sem perder nada com isso. Sempre que faço essa lista acabo finalizando com uma menção honrosa que acaba sendo entregue para a sessão que mais me marcou naquele determinado ano. Esse ano, por mais que tenha tido várias sessões marcantes, não tive nenhuma como tive ano passado com Fantasia e Mad Max no São Luiz, nem no ano que o antecede que entreguei todas as minhas honras para Rocky Horror Picture Show – por incrível que pareça também no São Luiz. A sessão desse ano foi no meu quarto, na madrugada da véspera do ano novo. Sem nenhum luxo, com nenhuma cerimônia. E com a lista do ano já finalizada. Pode não ser o melhor filme do ano, mas todas as suas qualidades o colocam ele facilmente figurando entre por entre os que são melhores que ele. Hell or High Water é um western, se analisado detalhadamente pode ser até adentrar naquilo que Bazin chamou de gênero americano por excelência. Não duvido, mas é com ele que, enfim, entrego minha lista dos melhores filmes que povoaram esse turbulento e decisivo ano:

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  1. O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
  2. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  3. Toni Erdman, de Maren Ade
  4. Academia das Musas, de José Luis Guerín
  5. Hell or High Water, de David Mackenzie
  6. A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha
  7. A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa / Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira
  8. Carol, de Todd Haynes
  9. O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho
  10. A Bruxa, de Robert Eggers / Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler

Sexo, Mentiras e Videotape

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O poder da retrospectiva é uma ferramente interessante para quem se importa ou involuntariamente acaba refletindo sobre o cinema e os caminhos que a linguagem acaba sempre percorrendo para tentar se reinventar. Ver hoje pela primeira vez (em plena globalização, no ano de 2016) o debute de Steven Soderbergh para o cinema é interessante se colocarmos em panorama o contexto que ele estava inserido no ano de seu lançamento, em 1989. O cinema independente americano acabava de perder seu maior expoente, John Cassavetes, que por si só já poderia ser considerado o fim de um ciclo de rompimentos de barreiras do ‘fazer cinema’ em Hollywood que acontecia desde 1959, quando Cassavetes lançou seu primeiro longa e foi responsável pelo período mais frutífero do cinema independente americano. O ultimo grande filme de Cassavetes, Amantes, foi lançado 5 anos antes, em 1984, e Sexo, Mentiras e Videotapes ganhar a palma de ouro em Cannes no ano da morte do pai do cinema independente americano pode simbolizar a passagem de bastão para que Soderbergh pegasse as rédias do movimento e desse um rumo para ele. Infelizmente não foi isso que aconteceu e logo nas produções posteriores Soderbergh cambaleou para as grandes produções e abandonou o cinema independente que deu o gerou. Agora, desacreditado do cinema, se voltou para as produções televisivas e alimenta a alcunha de “ex-cineasta”. Enquanto o movimento independente americano se manteve vivo durante todos esses anos – mesmo que sempre beirando ao ostracismo – em nomes como Jim Jarmusch ou em pequenos movimentos jovens como o Mumblecore, oriundo do começo do novo milênio, responsável por nomes que até hoje mostram que o cinema independente sempre vai existir enquanto pessoais quiserem dizer algo significativo sem que seja preciso vender a alma.

Pontypool, de Bruce McDonald

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Está comprovado que a palavra Digital é a mais complexa que existe. Tão incompreensível na mesma proporção que é completa. Já olharam ela no dicionário? Até quando ela foge do seu conceito literário e tenta se traduzir em imagens sua compreensão segue sem sentido aparente. Ela carrega o futuro dentro de sua sintaxe. É possível ver o que nos reserva quando ela é realmente compreendida. Uma nova era toda dentro de apenas sete letras. Uma máquina binária de perfeição orquestral. Essa palavra precisa ser dita e todos possam compreender que no futuro só existirá os números.

(Última gravação do pesquisador linguista José da Silva antes de ser encontrado morto em circunstâncias misteriosas)

Olhos de Serpente, de Abel Ferrara

Dangerous Game

É de se notar que em meados de Dangerous Game a narrativa se auto-explode quando ela própria se compreende inútil por estar tentando seguir uma linearidade. O que antes era visto em uma ordem cronológica, do filme que está a sendo filmado, agora passa a acompanhar fragmentos de uma história dissonante. O diretor ora se faz onipresente, ora se torna personagem em seu próprio filme. A busca pela compreensão (coisa inútil de se fazer nos filmes extremos do Ferrara) não faz mais sentido. O que se quer aqui é apenas e exclusivamente sentir.

A fita é toda sobre a obsessão de um homem pela sua arte. Ele está tão determinado a ser real que tudo ao seu redor vira uma ficção que se confunde com a existência. As drogas que eram para ser falsas se tornam reais; o álcool que era para ser água vira combustível de uma locomotiva humana de destruição em massa; o sexo gratuito não sabe se é necessário se fazer gráfico ou subjetivo.

Poucos cineastas conseguiram transpor a metalinguagem de forma tão avassaladora para a tela como Ferrara consegue. Se temos em Cassavetes uma verdadeira Tour de Force da decadência de uma mulher em Noite de Estréia – onde Gena Rowlands se confunde até se perder na atriz que interpreta – em Dangerous Game o diretor também se perde, só que numa busca obsessiva por uma verdade que parece não existir.

Seria o amor? Ou apenas um vício? Quando Herzog aparece na tela ele não dá muitas respostas para o que o diretor e nós estamos procurando e/ou tentando entender, apenas a certeza de que estamos trabalhando com obsessão, a matéria-prima do diretor alemão.

Seria essa obsessão pela realidade? Pois no começo somos apresentados a um filme que se transveste de real para que no fim estejamos diante de algo real que está no filme. E tentar reviver toda a trama na memória é tão confuso quanto tentar entender o que se sente. Mesmo as cenas sendo como tinta permanente na mente, onde quase todas são marcantes e lembrantes, nada parece fazer sentido. E tentar explicar o que foi visto sempre soará um ato falho e castratório.

A única coisa que podemos concluir disso tudo é que muitos ousaram em se aventurar em tramas que discutem o ato de fazer filme, mas poucos conseguiram fazer como Ferrara e transformar a metalinguagem como o ato de se fazer filme.

The Invitation, de Karyn Kusama

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Compreender uma narrativa as vezes se torna uma necessidade ‘desnecessária’ em um cinema de gênero que busca sensações intensas e marcantes. Para ser um pouco radical, acredito que o verdadeiro e bom cinema de gênero coloca a compreensão – tão procurada por telespectadores habituados com um cinema mais generalizado – por ultimo numa escala de prioridades.

Desde os primeiros minutos de The Invitation começa-se a perceber que tentar traçar uma linha imaginária para entender seu enredo é um ato fadado ao fracasso. Por quê? Pelo simples motivo que um verdadeiro horror não é aquele que se faz assustar com os famigerados jump scary e sim aquele que nos joga para o meio do incompreensível, nos deixando com medo daquilo que está muito além de nossa compreensão.

Nos minutos finais de O Bebê de Rosemary – aqueles que sua provável loucura está mais latente – o telespectador que se via dividido entre acreditar nela ou em todos ao seu redor acaba que cedendo e aceita um tipo de gravidez psicológica – sim, Polanski nos engravida – e passa a ver tudo pela perspectiva da protagonista.

The Invitation segue o mesmo tipo de terror psicológico que o clássico dirigido por Roman Polanski, só que a única diferença é que Karyn Kusama não cansa de nos pregar (boas) peças, o que ocasiona numa confusão tão atordoante que nos vemos sem escolhas e acabamos por adentrar na mesma bad trip que o protagonista aparenta estar – sempre variando entre alucinações palpáveis e um mal-estar angustiante.

O mais curioso é que acabamos nos tornando masoquistas diante dessa montanha-russa de sentimentos que deveriam nos ser incomodos. Talvez pela relação que conseguimos criar com os personagens ou uma simples curiosidade mórbida de um desfecho, não dar para saber. A unica certeza que se pode ter é da catarse de sensações que o ultimo ato nos proporciona, fazendo com que compreendamos como o cinema de gênero independente merece tanto a nossa atenção.

A Bruxa, de Robert Eggers

witchConfesso que assistir a um filme de terror numa sala de cinema (coisa que muitos devem acham amedrontador) se tornou uma atividade broxante para mim. Não estou levando em consideração a algazarra que se instaura na sessão com jovens destilando comentários e quebrando todo o clima, também é um fator que pesa, mas é pelo fato de você se sentir seguro, sabendo que ali sua vida não corre nenhum perigo – a não ser que você more nos EUA e o perigo de aparecer um surtado numa sala de cinema seja recorrente.

Sempre que vejo um filme de terror numa sala de cinema acabo me lembrando da infância quando ia para a casa da minha avó e ia à locadora pegar vários filmes do gênero para ver com os primos e os amigos. As sessões eram numa TV modesta na sala de alguma casa disposta a receber várias crianças. A qualidade não era a mesma que um cinema de ponta (mesmo sendo bem questionável a qualidade atual de alguns cinemas), mas todo o clima e ambiente superava a de uma sala. Até os comentários engraçados faziam todo sentido e só tinham a acrescentar. E tudo se potencializa quando por algum motivo irracional o filme era visto na solidão.

A Bruxa lembrou-me muito minha infância. Cresci vendo filmes de terror das diversas qualidades, e toda película do gênero busca – acima de tudo – clima, e não susto. A mise-en-scène do gênero é uma das mais arriscadas porque é preciso uma mão de direção firme que saiba por onde seguir e até onde chegar. Aqui, Robert Eggers percebeu que muitas vezes não é preciso mostrar para se ver e se temer. A subtração adiciona muito no gênero e muitas vezes a ausência acaba chocando mais.

Ausência essa que lembra muito a câmera louca do John Carpenter em Halloween que fazia o Michael Meyers onipresente, que por sua vez acabava deixando o mal em um estado de total dominação. Em A Bruxa o mal também se torna onipresente e domina tudo e todos que estão diante da tela. Alguns momentos são como se a câmera fosse o fator pivô da maldade que rodeia toda aquela família. A morte parece esperar o momento de acontecer só para ter o close ideal e aumentar ainda mais as sensações de desconforto que todos (os personagens e o telespectador) estão sentindo.

Todo o marketing ao redor do filme pode ser o motivo de incompreensão que muitos vão sentir ao assisti-lo, e vão reclamar dele não ser um filme de sustos – porque realmente ele não é. A Bruxa é um filme de clima, de tensão, de incômodo (porque o verdadeiro cinema de terror causa mal estar).

Uma pena ter visto esse filme no cinema, porque agora compreendo como ele cairia como uma luva numa sessão em casa, sozinho, com todas as luzes apagadas e minha cama se tornando uma extensão para o medo e a imaginação.