Sexo, Mentiras e Videotape

vlcsnap-2016-11-24-02h43m31s66

O poder da retrospectiva é uma ferramente interessante para quem se importa ou involuntariamente acaba refletindo sobre o cinema e os caminhos que a linguagem acaba sempre percorrendo para tentar se reinventar. Ver hoje pela primeira vez (em plena globalização, no ano de 2016) o debute de Steven Soderbergh para o cinema é interessante se colocarmos em panorama o contexto que ele estava inserido no ano de seu lançamento, em 1989. O cinema independente americano acabava de perder seu maior expoente, John Cassavetes, que por si só já poderia ser considerado o fim de um ciclo de rompimentos de barreiras do ‘fazer cinema’ em Hollywood que acontecia desde 1959, quando Cassavetes lançou seu primeiro longa e foi responsável pelo período mais frutífero do cinema independente americano. O ultimo grande filme de Cassavetes, Amantes, foi lançado 5 anos antes, em 1984, e Sexo, Mentiras e Videotapes ganhar a palma de ouro em Cannes no ano da morte do pai do cinema independente americano pode simbolizar a passagem de bastão para que Soderbergh pegasse as rédias do movimento e desse um rumo para ele. Infelizmente não foi isso que aconteceu e logo nas produções posteriores Soderbergh cambaleou para as grandes produções e abandonou o cinema independente que deu o gerou. Agora, desacreditado do cinema, se voltou para as produções televisivas e alimenta a alcunha de “ex-cineasta”. Enquanto o movimento independente americano se manteve vivo durante todos esses anos – mesmo que sempre beirando ao ostracismo – em nomes como Jim Jarmusch ou em pequenos movimentos jovens como o Mumblecore, oriundo do começo do novo milênio, responsável por nomes que até hoje mostram que o cinema independente sempre vai existir enquanto pessoais quiserem dizer algo significativo sem que seja preciso vender a alma.

Um Barco Chamado Cassavetes

Sou navegante sem rumo em um mar que não existe ondas e a única forma de nos movimentar é prendendo uma corda em uma navegação a motor e seguir seus caminhos. Essa vida requer muita experiência de escolher as melhores e colocarmos nelas nossa corda. No entanto, não é porque algumas são naus que signifique sempre nos levar pelo melhor caminho, os botes também podem nos reservar boas surpresas. Foi meio com a sorte do meu lado que na noite do dia dez resolvi colocar minha corda em uma pequena, mas luxuosa, embarcação que passou pela minha frente quando eu menos esperava. O chefe dessa embarcação era John Cassavetes. Confesso que o que me cativou foram seu carisma e seu nome engraçado. O caminho que ele me levou foi avassalador, nunca me esquecerei da turbulência que foi passa-lo. Lembro dele me dizendo a todo instante que tudo ia valer a pena, que tudo ia acabar com um saldo positivo. Eu, que já estava ali, não tinha nada a perder se continuasse a seguir com ele. E foi o que eu fiz. Uma semana de mal estar por estar naquele caminho conturbado. Mas não desisti, continuei a seguir com ele. Aos poucos fui vendo a luz e todas as recompensas que ele havia me prometido. Não era ouro, nem muito menos joias. Cassavetes havia me levado para um lugar onde eu nunca pensei em sair, em voltar. Cassavetes me levou para o verdadeiro cinema. Cinema esse que é sentido a cada quadro, amado a cada ‘gestus’ do corpo e apaixonante a cada expressão. O barco de Cassavetes era pequeno, mas havia nele coisas que muitas embarcação grande que naveguei nem sonhavam em ter.

Esse dia 10 foi o dia que mudou minha vida, foi quando conheci Cassavetes. Quando conheci o cinema. Quando conheci a vida. Quando comecei viver.

O Alcoolismo no cinema de Cassavetes

Cena de “Uma Mulher Sob Influência”

Os vícios e o cinema sempre andaram de mãos dadas, mesmo que muitas vezes isso não fosse totalmente perceptível. Na visão moralista, o álcool (o assunto em questão) como um mal para a sociedade. Via-se o alcoolismo como uma doença social e alguns filmes tentavam mostrar essa visão, mesmo que caindo em contradição. Mas existiam aqueles que não viam os vícios como algo negativo, até mesmo acreditavam no oposto. John Cassavetes era um desses. Ator, diretor, roteirista e boêmio, considerado o pai do cinema independente americano, Cassavetes foi vanguardista e nadou contra a maré em vários aspectos cinematográficos, e também em questões sociais como os vícios, principalmente o álcool, sua paixão, que está sempre presente em todos os seus filmes.

Cena de “Farrapo Humano”, de Billy Wilder

Mesmo com o cinema da antiga Hollywood fazendo parecer que a bebida alcoólica fosse algo comum na sociedade, eles tentaram, as vezes, subir uma bandeira contra o álcool. O exemplo, talvez, mais grandioso desse movimento é o premiado Farrapo Humano, de Billy Wilder. Nele vemos um alcoólatra que machuca sem perceber as pessoas ao redor quando continua alimentando o seu vício. O filme é um bom exemplo de como o álcool pode fazer mal, mas é impossível não comparar com outras obras tão premiadas – e bem mais lembrados – do Wilder. Em Se Meu Apartamento Falasse o álcool é figura carimbada em todos os seguimentos importantes da fita assim como a obra-prima “Crepúsculo dos Deuses” onde a bebida é praticamente a engrenagem que move toda a trama, subliminarmente.

Todos esses dois filmes foram décadas depois de Farrapo Humano, e servem de exemplo para como o cinema foi se moldando para recebê-lo sua estrutura. Foi percebido que sem ele a sociedade não funciona como querem que ela funcione e é isso que Cassavetes tentou mostrar. Ele viu que é no álcool que as pessoas conseguem ser o que realmente são e passou a expressar isso em suas obras.

Cena da bebedeira em "Os Maridos"

Cena da “Os Maridos”

Se pararmos para analisar filme por filme da carreira de Cassavetes – como diretor – vamos perceber a desilusão que seus personagens vivem e a maneira bucólica que eles enxergam a vida. Eles estão tristes e vivem em constante melancolia, e usam o álcool como a única forma de aguentar a pressão que lhe são depositadas. Em “Faces” vemos um casal tentando manter um casamento que eles sabem que está em seu fim, usam o álcool para ser o que são e expressar suas vontades, mesmo que isso resulte em morte; Em seguida vem “Os Maridos”, onde três amigos em luto usam e abusam da substância para tentar superar a morte de um amigo e conseguir forças para tentar seguir em frente, aproveitando para usufruir por um curto espaço de tempo uma liberdade que eles sabem que não será duradoura; Já os dois filmes depois desse (“Assim Falou o Amor” e Uma Mulher Sob Influencia”) o casamento volta a ser o assunto principal (para completar a trilogia do casamento junto com “Faces”) e mostrar o amor usando novamente a bebida para tentar superar os problemas conjugais e até extraconjugais.

Em “Noite de Estreia” vemos uma Gena Rowlands em crise de meia idade. Ela não sabe para onde vai, nem o que fazer e o sua única forma de tentar expressar isso é afogando suas mágoas e medo em um copo cheio. Talvez ela seja a figura de Cassavetes que, mesmo com toda a fama e todo dinheiro, não consegue achar seu lugar no mundo e não consegue entender sua existência.

Cena de “Amantes”

“Amantes” é o testamento de Cassavetes, seu verdadeiro ultimo filme (Big Trouble não foi originalmente um projeto seu) onde toda sua carreira esta ali, em 141 minutos de puro porre e mal estar – que não enfraquece nem um pouco a obra. Cassavetes morreu por conta de seus vícios, mas não que ele tenha sido um alcoólatra ou um viciado em drogas. Se assistirmos os suas películas (como diretor e até alguns só atuando) vamos perceber que todos os seus personagens bebem exageradamente. O mais visível de todos é Robert de Amantes. Nele, Cassavetes bebe sem se preocupar com o amanhã; faz crianças beberem sem se preocupar com o moralismo social e faz tudo que sente vontade quando esta no efeito do álcool. Em Amantes, ele não é um personagem como foi em “Os Maridos”, “Assim Falou o Amor” e “Noite de Estreia”, ali é ele mesmo (não alter ego como gostam de chamar) tentando se encontrar no fundo de um copo de bebida, tentando se entender, tentando buscar o sentido de sua vida.

O álcool no cinema de Cassavetes é o vício que todos temos. Não que seja só a bebida, existem outros vícios que possuímos e possuiremos. O que Cassavetes tenta mostrar em sua obra é que nós estamos doentes enquanto sociedade e nós escondemos atrás de coisas que deveriam nos deixar protegidos, mas nos deixam mais vulneráveis do que somos, e que nada disso vai adiantar se nós não soubermos quem somos e para onde vamos. O cinema de Cassavetes é isso: a busca de si mesmo. Todos os protagonistas estão perdidos dentro de si e não sabem para onde andar, e logo começam a andar em círculos, logo começam apenas a existir.

Amantes, de Cassavetes

É indescritível a forma de viver que adotamos para nossas vidas. Sempre estamos atrás de algo. Nunca estamos satisfeitos com o que temos e sempre queremos mais, seja material ou espiritual. Estamos em constante procura de tudo e todos, e muitas vezes estamos a procura de nós mesmos. Somos amantes, da vida, do icônico e do incerto. Os Amantes de Cassavetes também. Eles não são amantes tradicionais, não que o amor esteja em segundo plano, o amor é tudo na vida deles e eles fazem questão de repetir isso a todo instante, mas os amantes de Cassavetes são amantes da vida, da incompreendida e duvidosa vida. Eles estão em constante busca da felicidade, do bem estar espiritual, e para isso enfrentam tudo e todos que estiverem nos seus caminhos. De divórcios mal resolvidos a desentendimentos com o filho criança, eles tentam deixar tudo isso de lado e seguir uma vida feliz e harmoniosa, tentam. E essa busca parece não ser compreendida pelos que estão em suas voltas, chegando até a insultá-los, mas os Amantes de Cassavetes não fazem por mal, eles só estão a procura do melhor para eles. O próprio Cassavetes deixa explicito que só quem consegue alcançar o estado de extrema felicidade são as crianças e os idosos, porque eles são felizes com o que possuem e não precisam de mais nada para se preencher.

Cassavetes fez desse filme o seu testamento cinematográfico. Considerado por muito seu verdadeiro ultimo filme, Amantes é um filme que vemos o diretor em cada cena, literalmente, em busca da felicidade e se entregando para seus vícios excessivamente, vícios que causaram a sua morte prematura.

Amantes é o ponto final excelente da carreira excepcional de um diretor que além de tudo nunca deixou de mostrar o que a sociedade tem de mais grotesco e complexo: o ser humano.

5/5

Os Maridos, de Cassavetes

Estamos predestinados a viver em caminho da morte. Cada passo que damos na vida é um passo a menos para nos encontramos com o nosso fim. Diante desse caminho nos cruzamos com vidas e mais vidas e cabe a nós sabermos segurar as que mais importam junto de nós e aprender a viver com a dor da perda daqueles que chegam no seu caminho final antes de nós. É mais ou menos nesse sentido que vida tenta se segurar, e Cassavetes também a contar, talvez, sua história mais marcante e simbolista. Os Maridos não são apenas amigos que estão passando por uma fase de luto por causa da morte de seu companheiro. Os maridos, como os letreiros dizem no começo do filme, são homens que – poderia ser eu ou você – estão entre a vida e a morte (no sentido figurado) e nisso estão a procura da liberdade, espiritual. As brigas, corridas e gritarias que eles causam na rua podem parecer um simples artificio do roteiro, mas quem conhece a verdade do cinema do ator e diretor americano sabe que nada ali é por acaso, nenhum improviso se torna inútil na visão geral. Essa é a forma dos personagens, e também atores, de colocarem toda a dor e sentimento que estão dentro de si. As faltas de diálogos em algumas cenas não subtraem no resultado final do filme. Como muitos sabem e repetem, atos valem mais que mil palavras, e nessa fita os atos são a forma mais sincera de comunicação da plateia com a arte em questão. A prisão sem muros que os personagens vivem a cada cena mostra que eles precisam voltar para a realidade e deixar esse “capricho” de sentir dor e falta de lado. É doloroso ver que a cada momento o fim está chegando, não da vida deles, também, mas de uma jornada em busca de uma falsa liberdade. A liberdade em questão é incerta e imprevista, como o roteiro. Tudo pode acontecer quando se está liberto, nada é certo e muito menos falso. É essa essência que o filme a todo o momento passa, que aquilo é perecível e a qualquer momento pode acabar. Quando chegamos ao fim vemos que a realidade falsa não valeu a pena porque a vida que os maridos vivem é um mundo que eles precisam ser os mesmos todos os dias e todos os momentos sem a chance de mudar e ser eles mesmos. E de novo o fim é o que mais dói, a incerteza do hoje e do amanhã. Sentimo-nos traídos por Cassavetes, queremos que ele nos diga o que vem em seguida nas nossas vidas e que nos diga o que vai ser de nós. No final a dor de que o passado não volta toma conta e a única coisa que nos resta é voltar e voltar a fita para recordarmos de quando fomos felizes, de quando fomos felizes e de quando tudo parecia valer a pena.

Cassavetes talvez seja o realizador mais sincero que o cinema pariu. Poucos diretores conseguiram seguir a essência verdadeira e real que os seus filmes possuem. Seja pela total liberdade que seus atores tinham de criar e serem seus personagens como nos seus roteiros feitos e sentidos na hora. O cinema do pai do cinema independente americano é imprevisível e real, como a vida.

5/5