Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

6 cred Victor Juca_Sonia Braga

Reza a lenda que Dead Souls era a música escolhida para iniciar os shows do Joy Division, sendo assim possível – dentro da sua introdução de quase dois minutos – que Ian Curtis sentisse qual era o clima que pairava e com isso entregasse uma experiência que beirava ao divino a todos que estavam presentes. Aquarius se inicia em uma tela preta com o barulho do mar e, até que a primeira cena do filme realmente aconteça, a mise-en-scene de Kleber está ali a arquitetar um experimento preciso para todos aqueles que compartilham o ambiente escuro do cinema.

Mesmo sem a áurea depressiva que Ian Curtis carregava em sua persona, Sonia Braga surge sem aviso prévio – assim como a voz do vocalista britânico na música. Ela é precisa, intensa, avassaladora. Uma verdadeira encarnação do cinema, que quando olha para a tela sabe que está sendo filmada por Kleber e observada por nós. Ela não tem medo de se entregar, de expor suas vísceras na tela. Ela se faz onipresente mesmo estando constantemente em cena.

O show segue e o filme também, e o conforto que o incomodo possui é muito interessante. Ver os conflitos e a forma que eles são filmados é um tanto Cassavetiano. A câmera que sabe onde filmar porque compreende por completo tudo que está acontecendo e todos os sentimentos presentes de onde está inserida. Sabe onde incomodar, onde humilhar, onde admirar o bela assim como o que tende a ser feio.

Até que chega o horror. A realidade que bate a porta e que nem todos são capazes de enfrentar. Existe a negação, a ira, a barganha, a depressão e por fim a aceitação. As fases do luto que podem não ser na exata ordem que se devem acontece, mas que sempre acontecem. Clara pode não ter tido o mesmo destino do Ian Curtis, mas ela também se sentiu incomodada com a crueldade que a rodeava e resolveu, por fim, ser um incômodo.

Se Cassavetes tinha Gena Rowlands, Kleber Mendoça Filho tem Sonia Braga. Ambas são a energia, se perdem e se encontram em cena. São mulheres. Mulheres.

Aquarius é como ouvir um disco do Joy Division. É tudo belo na mesma proporção que o realidade machuca. Mas o que importa no fim é saber que você não será mais o mesmo depois da experiência.

Unknown Pleasures

Joy-Division_Unknown-Pleasures_1979

“Isto não é um conceito, é um enigma.”
Frase presente na contracapa do LP do álbum.

Passa na cabeça a necessidade de uma música que deveria ser o mais visual possível. É difícil, é complexo, mas em nenhum momento chega a ser impossível. A arte tem vários estágios, e o de maior relevância é quando ela consegue se transformar além dos sentidos que está encarregada à atacar.

Uma foto segue diretamente para nossos olhos, ataca a nossa retina sem pensar duas vezes. E quando acontece da imagem carregar lembranças tão fortes e intensas ela acaba envolvendo todos os sentidos existentes. Uma imagem de nossa infância nos faz ouvir os gritos nas brincadeiras de rua; o gosto dos doces que não saiam de nossas bocas; o cheiro do café de nossas avós que infestavam cada cômodo de nossas casas.

Aquela imagem passa de uma simples obra de arte unilateral para se tornar uma arte de ampla estrutura capaz de nos tocar em vários dos nossos sentidos.

Ouvir Joy Division é essa arte ampla, que nos envolve não só no sentido da audição. A única diferença é que para que a audição se torne numa infestação dos outros sentidos não está na nostalgia – como no exemplo acima da foto. Uma primeira e única audição é o suficiente para isso.

É como ser transportado para uma viela da Manchester pós-revolução industrial. Somos capazes de ouvir nossos passos, os barulhos da máquina que nos rodeiam e nos prendem. Logo no começo de “Insight” ouvimos a porta de elevadores se abrindo. Elevadores esses que nos transportam de cima para baixo dos prédios que trabalhamos num emprego que nos obriga tanto a ser burocrático que acabamos nos tornando uma rotina existencial. Já em “She’s Lost Control” ouvimos os sprays que usamos para expor nos muros da cidade toda nossa insatisfação com o sistema que vivemos. Assim como em “Shadowplay” podemos ouvir os roncos dos carros que correm desenfreados, sem rumo, em busca de um destino inexistente.

A bateria mecanizada de Stephen Morris que se mistura a o baixo totalmente dominante de Peter Hook é a ligação que precisamos para compreender que estamos presos a algo que é maior do que tudo que acreditávamos. A guitarra – instrumento dominante no punk rock – de Bernard Sumner aparece apenas para lembrar que algo está morto ali, seja isso o post punk ou a alma coletiva que a voz marcante e perturbadora do Ian Curtis faz questão de nos lembrar a cada berro – e uivos – que mais parecem de desespero do que de revolta.

O debut do Joy Division (banda oriunda da cena punk de Manchester) veio para mostrar que o gênero estava morto. O punk, que surgiu em meados dos anos 70, não teve fôlego para completar sua permanência na década. O gênero era tão juvenil e tão intenso que veio a sucumbir em seus próprios ideais, perdendo a ira e só sobrando toda a frustação.

O que alguns não percebem é que as cartas já tinham sido jogadas na mesa. Já na capa do Unknown Pleasures somos entregues a uma arte conceitual do Peter Saville onde uma estrela morta é captada por um medidor de pulso. Esse mundo no qual o Joy Division tenta nos mostrar é o mesmo que Jacques Tourneur faz o telespectador adentrar em “A Morta-Viva”. Nele, o personagem do Tom Conway não mede esforços para resumir o que a personagem de Frances Dee irá encontrar em seu novo destino. Suas palavras são diretas e precisas quando ele diz:

“Aqui não há beleza, só morte e decadência. Pode não acreditar nisso. Aqui tudo de bom morre até mesmo as estrelas.”

Talvez seja um excelente resumo dessa obra tão singular e uma previsão do que iria de vir por ai. Unknown Pleasures assusta a quem ouve porque ele é uma explícita declaração de amor ao concreto, algo que está morto e não tem mais como ser entregue de volta a vida.