Anticristo, de Lars Von Trier

O diretor Lars Von Trier – conhecido por ousar e inovar – causou fuzuê no mundo do cinema em 2009 quando lançou, em Cannes, seu filme “Anticristo”, onde os adjetivos que fizeram a fama do dinamarquês estão bastante presentes. Um filme muito fácil de ser criticado. Quem é que vai gostar de um filme que possui cenas de sexo explicito logo em sua cena inicial? Quem é que vai gostar de um filme com poucos diálogos e cenas de horror com direito a automutilação? É um filme muito forte para eu e você assistirmos, estamos tão acostumados, tão bem, com os mais do mesmo da indústria que não precisamos disso, não precisamos de um diretor que entrou em depressão e logo depois foi escrever um roteiro para exorcizar todas as suas tristezas e todas as suas incertezas, não queremos ver sangue em excesso na tela, não queremos cenas que o homem (não o gênero) interagindo de forma cruel com a natureza e tentando buscar respostas das coisas dentro delas e muito menos queremos saber de criticas a um sistema de saúde mental que usamos durante anos. Esse diretor não merece espaço na mídia porque ele fere com meus conceitos de cinema, fere com minha projeção do que é arte e –principalmente – não sente medo de mostrar todos os tabus da sociedade. Não importa o que o filme tenta passar, mesmo que incomodar seja a prova que ele tocou em algo que estava guardado lá dentro de mim, não queremos sentir sensações nova no cinema, não queremos experiências novas, inesperadas, não precisamos de nada disso. Preferimos filmes bem enquadrados e bem costurados, que mostrem o que não somos e o que nunca tornaremos, e não esses filmes sem ideais que só querem nos chocar e nos deixar horrorizados como tanta crueldade que o ser humano pode ser capaz de exercer.

4/5

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A Melancolia de Lars Von Trier

Quando fui assistir Melancolia esperava mais um filme complexo e cheio de simbolismo, típico do Trier, e me enganei. Não que não deixe de ser complexo, é, e não que deixe de ter simbolismo, tem, mas esse filme é diferente dos filmes anteriores dele, não é preocupado a perguntar e explicar. É mais um filme para se sentir e fazer pensar ao final da sessão.
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Melancolia é um planeta que vai (ou não) colidir com a terra, causando sua destruição total. Nisso Justine está prestes a se casar com Michael, em um casamento organizando por sua irmã (Claire), que ela não é muito intima, e o marido dela, John.
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Dividido em duas partes, Justine, a primeira, mostra a festa do casamento da mesma. A família e amigos estão todos em uma festa que carrega uma energia de falsidade (remete ao primogênito do Dogma 95). E podemos perceber no começo da primeira parte que Justine não está conseguindo se levar na energia da festa. E mesmo na segunda parte percebemos sua triste e melancolia. Ela não consegue ficar feliz por estar se casando, como se algo mais forte estivesse dominando ela, algo que na primeira parte do filme nem ela consegue entender o que é.

Na segunda parte do filme, Claire, o foco é na irmã de Justine. É também nessa segunda parte que ficamos sabendo da existência do planeta Melancolia, que vai fazer uma passagem na terra, mas muitos acreditam que ele vai colidir com ela. A tensão da segunda parte gira em torno da duvida de Claire se o Melancolia vai ou não colidir com a terra. Se a primeira parte é tediosa e parada, a segunda é tensa e melancolica. A depressão gira em torno de Justine que não consegue fazer algumas coisas, dependendo de sua irmã para cuidar dela. E John espera ansioso a passagem do Melancolia, esperando com seu filho um evento histórico e belo, acreditando que ele não irá colidir com a terra.

John pode ser representado pela razão e Justine pela emoção. John diz com convicção cientificas que é apenas uma passagem, que ele não vai colidir e não admite que a mulher duvide, e com isso, de certa forma, ela demonstra acreditar nele. Já Justine acredita na colisão, e ela não tem provas cientificar, mas como ela diz “eu sei das coisas” e mostra que sabe mesmo, fazendo Claire ficar no meio do muro do que vai e do que não vai acontecer.

O telespectador compartilha com a duvida de Claire e fica se perguntando por toda a fita se o Melancolia vai ou não colidir com a terra. Duvidas que Trier consegue segurar até o final dos 136 minutos de filme.

Melancolia tem uma pegada lenta, melancólica, e quem não está acostumado com a câmera conturbada do Trier pode estranhar com a primeira impressão, mas como todos os filmes do diretor, se assistido de cabeça aberta se torna uma sessão agradável. E recomendo assistir em uma sala de cinema, porque o seu prólogo artístico (que muitos acharam desnecessário) como seu final só têm a força que tem a intenção de passar em uma boa sala de cinema.

Lars Von Trier está de parabéns, Melancolia é uma experiência sensorial incrível, que no final faz você fica sentado na cadeira olhando para a tela preta do cinema por um bom tempo e que se mantém martelando a sua cabeça por dias.

4/5