Unknown Pleasures

Joy-Division_Unknown-Pleasures_1979

“Isto não é um conceito, é um enigma.”
Frase presente na contracapa do LP do álbum.

Passa na cabeça a necessidade de uma música que deveria ser o mais visual possível. É difícil, é complexo, mas em nenhum momento chega a ser impossível. A arte tem vários estágios, e o de maior relevância é quando ela consegue se transformar além dos sentidos que está encarregada à atacar.

Uma foto segue diretamente para nossos olhos, ataca a nossa retina sem pensar duas vezes. E quando acontece da imagem carregar lembranças tão fortes e intensas ela acaba envolvendo todos os sentidos existentes. Uma imagem de nossa infância nos faz ouvir os gritos nas brincadeiras de rua; o gosto dos doces que não saiam de nossas bocas; o cheiro do café de nossas avós que infestavam cada cômodo de nossas casas.

Aquela imagem passa de uma simples obra de arte unilateral para se tornar uma arte de ampla estrutura capaz de nos tocar em vários dos nossos sentidos.

Ouvir Joy Division é essa arte ampla, que nos envolve não só no sentido da audição. A única diferença é que para que a audição se torne numa infestação dos outros sentidos não está na nostalgia – como no exemplo acima da foto. Uma primeira e única audição é o suficiente para isso.

É como ser transportado para uma viela da Manchester pós-revolução industrial. Somos capazes de ouvir nossos passos, os barulhos da máquina que nos rodeiam e nos prendem. Logo no começo de “Insight” ouvimos a porta de elevadores se abrindo. Elevadores esses que nos transportam de cima para baixo dos prédios que trabalhamos num emprego que nos obriga tanto a ser burocrático que acabamos nos tornando uma rotina existencial. Já em “She’s Lost Control” ouvimos os sprays que usamos para expor nos muros da cidade toda nossa insatisfação com o sistema que vivemos. Assim como em “Shadowplay” podemos ouvir os roncos dos carros que correm desenfreados, sem rumo, em busca de um destino inexistente.

A bateria mecanizada de Stephen Morris que se mistura a o baixo totalmente dominante de Peter Hook é a ligação que precisamos para compreender que estamos presos a algo que é maior do que tudo que acreditávamos. A guitarra – instrumento dominante no punk rock – de Bernard Sumner aparece apenas para lembrar que algo está morto ali, seja isso o post punk ou a alma coletiva que a voz marcante e perturbadora do Ian Curtis faz questão de nos lembrar a cada berro – e uivos – que mais parecem de desespero do que de revolta.

O debut do Joy Division (banda oriunda da cena punk de Manchester) veio para mostrar que o gênero estava morto. O punk, que surgiu em meados dos anos 70, não teve fôlego para completar sua permanência na década. O gênero era tão juvenil e tão intenso que veio a sucumbir em seus próprios ideais, perdendo a ira e só sobrando toda a frustação.

O que alguns não percebem é que as cartas já tinham sido jogadas na mesa. Já na capa do Unknown Pleasures somos entregues a uma arte conceitual do Peter Saville onde uma estrela morta é captada por um medidor de pulso. Esse mundo no qual o Joy Division tenta nos mostrar é o mesmo que Jacques Tourneur faz o telespectador adentrar em “A Morta-Viva”. Nele, o personagem do Tom Conway não mede esforços para resumir o que a personagem de Frances Dee irá encontrar em seu novo destino. Suas palavras são diretas e precisas quando ele diz:

“Aqui não há beleza, só morte e decadência. Pode não acreditar nisso. Aqui tudo de bom morre até mesmo as estrelas.”

Talvez seja um excelente resumo dessa obra tão singular e uma previsão do que iria de vir por ai. Unknown Pleasures assusta a quem ouve porque ele é uma explícita declaração de amor ao concreto, algo que está morto e não tem mais como ser entregue de volta a vida.

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Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes

verônica

É nos versos de ‘Mira ira’, musica apocalíptica da Karina Buhr, que vemos Verônica dançar. Ela se deixar levar por um desconhecido, um homem que está na esperança de sexo sem compromisso. Ele a leva bêbada para um hotel e não consegue o que tanto desejou. O que vemos ali é o pessimismo do diretor diante de uma geração. Essa geração que carrega o futuro nas mãos e está se sentindo totalmente desconfortável com isso.

Seguimos os passos e a voz de Verônica durante toda a projeção. Ao mesmo tempo em que somos apresentados a sua rotina tomamos conhecimento de seus medos e suas angustias. Ao redor dela existe uma cidade que não pára de crescer. Esse crescimento parece não estar ao agrado de Verônica – que todo momento parece tentar se desvirtuar disso tudo. A obrigação de trabalhar a sufoca e a faz parecer desistir de tudo que conquistou, mas logo sua razão (ou medo) toma o lugar devido e a faz continuar na vida maçante que a mata aos poucos.

Vemos uma recifense, mas a imagem que nos é passada é totalmente cosmopolita. Ela percorre uma cidade de tradição forte e compactua dos seus hábitos, mas em síntese vemos apenas mais um jovem que está perdido no presente com medo do seu futuro incerto.

Se formos analisar a letra de ‘Mira Ira’ vamos entender porque ela é cantada mais de uma vez no filme. Verônica é o reflexo de uma sociedade padronizada, que vive sentimentos programados. Ela ainda possui um pouco de vida dentro dela, mas que a cada minuto vemos que essa vida vai desaparecendo, o que resta é apenas mais um robô, pronto para funcionar como for mandado.

Tanto o começo quanto o final compartilham das mesmas imagens, talvez seja a única forma que o diretor encontrou de nos dizer que somos iguais a Verônica e, mesmo com todas as dificuldades e obstáculos, estamos sempre à procura de alguma coisa para fazer tudo valer a pena, tudo parece ter sentido. E que não adianta as escolhas que fazemos e os erros que cometemos, vamos sempre parar no mesmo lugar que começamos.

3/5

Kassin+2 – Futurismo (2006)

O Brasil é um misto de maracatu, as vezes tem um samba de preto velho e uns ritmos variados. É um liquidificador musical, artístico, criativo. E não é só agora que é assim, a história musical dessas terras tupiniquins são recheadas de maravilhas deliciosas para os ouvidos das cabeças abertas. Tivemos de tudo um pouco e mais um bucadinho e parece que sempre aparece mais um com algo novo por baixo da manga. É o Brasil, tão odiado e ao mesmo tempo tão amado.  A terra dos Mutantes e sua psicodelia hipnotizante, Tom Zé e seu surrealismo transcendental e os Novos Baianos e sua simplicidade transformadora. E quando achamos que não apareceria nada de novo, eis que surge uma galera para nos provar o contrário. X+2 (Moreno, Domenico e Kassin) são músicos que resolveram se reunir e fazer três discos com cada um no comando. O terceiro, e ultimo, Futurismo foi o projeto do Kassin. Um disco transformador, transcendental e hipnotizante, não necessariamente nessa ordem. Não tem estilo, é o futuro junto com o passado se tornando presente. É a simplicidade abraçada com a complexidade. É o saudosismo entrelaçado com a tecnologia. E eles não sentem medo de experimentar, não sentem medo de brincar, de se divertir e é isso que o disco a todo o momento passa. Como foi feito com amigos, o disco é uma reunião harmoniosa que não se preocupa de seguir um estilo musical ou uma ordem, o que surgiu é o que surgiu e não tem nada melhor que o que é feito com espontaneidade, à vontade. Pode parecer assustador uma musica calma seguida de uma experimentação eletrônica e logo depois um rock indo pro lado industrial, mas é isso que o disco quer expressar, como diz na sua faixa título “Mas se você quiser meditar no futurismo/E tudo o que deixamos passar sem se importar”, e realmente, eles não se importam se não é comercial ou se é todas as misturas são surreais, o que importa é que tudo aquilo ali é “uma brincadeira delirante” [e prazerosa].

4/5

O Carnaval do Los Hermanos

É com tristeza nas palavras que o Marcelo Camelo grita “E é o fim! E é o fim!” na musica que pode ser considerada o hino supremo da banda carioca dos quatro barbudos. A musica abre o segundo disco da banda, o segundo de quatro discos, que mostram o carnaval, durante e depois.

No primeiro disco, de 1999, e talvez o mais incompreendido da banda, mostra todas as faces do carnaval. Da alegria para a tristeza, do pierrot a colombina. O disco é o carnaval na visão de várias pessoas, que amaram e odiaram, sorriram e choraram no carnaval. Os metais, que são a marca registrada da banda, está mais presente nesse disco, com algumas ausencias, mas que pode passar despercebido nos ouvidos dos menos atentos. O disco tem letras tristes, mas com melodias radiantes, como as marchinhas de carnaval, e também tem um gosto de pra sempre como os dias de carnaval.

O segundo disco, de 2001, mostra os eu-líricos do primeiro disco tendo que voltar para a vida real. O disco é a quarta-feira de cinzas, o ultimo dia do carnaval, onde a melancolia toma conta e a negação do fim dos dias de festa toma seu lugar. A faixa inicial é como se todos os eu-líricos do disco estivessem juntos, em alto e uníssono (como os fãs da banda nos shows) expressando a decepção do fim e querendo voltar a brincar de ser feliz nesse ultimo momento que os resta. Os metais deixam de ser usados como forma de deixar as musicas agitadas e começam a tomar uma forma mais melancólica, fugindo do que foi proposto no primeiro disco.

A quarta-feira de cinzas acabou e agora é a hora de voltar para a vida real (pelo menos tentar) e esquecer-se do que aconteceu no carnaval. O terceiro disco, de 2003, mostra os eu-líricos tentando voltar para a vida real, mas também mostra uma tentativa, falha, de fazer um carnaval fora de sua época. O disco tem letras mais pessoais, ao contrário dos discos anteriores. Os metais presentes conseguiram o que o segundo disco tentava, serem melancólicos. Outra coisa que se percebe no terceiro disco são os vocais, que estão desanimados, como se a noção que a vida tem que realmente seguir estivesse mais presente na cabeça dos eu-líricos.

As tentativas de voltar pro carnaval foram falhas e a vida está ai. É nesse espírito que nasce o quarto disco, de 2005, o ultimo da banda. Os eu-líricos cansaram de brincar de carnaval e agora estão encarando suas realidades. É de longe o disco mais depressivo e triste da banda. É como se com a volta pra realidade mostrasse que eles estavam melhores no carnaval. As letras estão mais tristes, falando geralmente de solidão, depressão e até morte. Claro que o amor não deixa de aparecer, mas a onda de tristeza é maior e camufla a felicidade. Os metais nesse disco foram deixados de lado, bem no fundo, como se o carnaval estivesse se despedindo, partindo.

O disco, e pode se dizer a careira do Los Hermanos, acaba com a frase “manda avisar, que esse daqui tem muito mais amor pra dar” e um grito eufórico, como se a felicidade estivesse chegando de novo, como se o carnaval estivesse voltando, e ciclo voltasse pro começo, para dá oportunidade para novos amores, novas decepções e, quem sabe, novos discos.

Toque Dela (2011), Marcelo Camelo

Marcelo Camelo é conhecido pelo publico brasileiro há um bom tempo. Sua primeira banda, Los Hermanos, fez sucesso em todo brasil. Em 2007 decretaram um hiato, e só voltaram a se reunir em 2009 (abrindo show do Radiohead) e em 2010 (para uma mini-turnê no Nordeste). Em 2008, Camelo lançou seu primeiro trabalho solo, “Sou”. Depois de 3 anos sem lançar nada novo, no começo de 2011 ele lança seu mais novo trabalho, o “Toque Dela”. O álbum possui dez faixas, todas de autoria do próprio Camelo (Com exceção de “Três Dias”, composta em parceria com o desenhista André Dahmer).

O disco parece ser todo composto em cima de saudade de um amor que parecia ter desaparecido, mas na realidade continua vivo dentro do eu-lírico. Mostra a tentativa de amar e viver depois da despedida de um grande amor. Que a saudade é algo que vai ficar preso na alma para todo sempre, e mesmo com grandes amores, essa “morena” nunca deixará de ser a morena tema das maiorias das musicas de amor.

Acho que o Camelo nunca chegou a superar o fim de algum relacionamento (namoro antigo, talvez), o que era de suspeitar em algumas composições anteriores fica visível nas composições desse disco. Essa saudade está presente em quase todas as faixa. Ele fez uma canção para acalmar essa pessoa, fez várias demonstrando que o amor dele é dessa pessoa e até o perfume ele jura que ainda sente. Não me surpreenderia se esse alguém estiver no peito de outro protetor morando em Minas Gerais.

O disco é bem diferente do seu antecessor. O Sou é melancólico indo pro depressivo, e também meio parado. O Toque Dela é mais “agitado” sem deixar a melancolia, presente em quase tudo do Camelo, de lado. Esse álbum marca a mudança de estilo do Camelo, que no Sou parecia ter alguma sequela do “4” do Los Hermanos, e agora incorpora um estilo próprio, sem se prender a estilos antigos, inovando na arte de compor musica mesmo.

Toque Dela é um disco que quando se acaba de escutar dá vontade de ter um amor para chamar de seu ou ir em busca de quem realmente amamos. De querer nos rechear de amor e procurar alguém para amar. As melodias possuem uma melancolia contagiante e poemas com uma leveza indescritível. Marcelo Camelo está de parabéns, Toque Dela consegue mexer conosco de uma forma que só ele sabe fazer.

5/5