Logan, de James Mangold

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Compreender o cinema como um movimento de massas pode parecer uma afronta para os mais cinéfilos, mas é uma realidade inegável. Mesmo que na sua criação ele acabara sendo uma arte marginalizada, foi com o “roubo” da elite que o cinema se tornou um espetáculo, e espetáculos só são o que são por causa do seu público. Mas o que define um bom filme? O público ou suas qualidades?

A experiência de ver Logan [James Mangold, 2017] dentro de uma sala de cinema acabou por ser uma experiência a parte. Percebe-se que antes, durante e depois da sessão o comportamento da plateia, que acredito ser o público alvo da película, é interessante ao mesmo tempo que assustador e intrigante, pois esse comportamento demonstra conceitos pré-fabricados sobre a película, já tendo uma opinião sobre o longa antes mesmo dos seus créditos iniciais serem apresentados.

Me perguntava constantemente porque o meio cinéfilo no qual acredito estar inserido nunca foi interessado nesse tipo de cinema. Agora percebo que a cinefilia, além de tantas camadas, preza principalmente pela criação de opiniões de forma livre, sem pressões de terceiros, e esse tipo de filme parece ser domado por alguma força maligna que exprime opiniões, prontas para serem disseminadas (lê-se: marketing).

O papel do marketing acaba que sendo uma faca de dois gumes. Se temos obras interessantes (Quarteto Fantástico [Josh Trank, 2015] e Batman vs Superman [Zack Snyder, 2016]) que acabam sendo massacradas por uma opinião pública cega, por outro lado temos obras como Logan que, mesmo significado um avanço para duas tentativas de filmes de mão pesada, não surpreendem em nada, apenas fazendo um trabalho decente e não excepcional.

Entendo em partes a necessidade de se ter um filme bom sobre seu herói favorito, só não consigo entender a glorificação para filmes meia-boca como esse.

Christine, de Antonio Campos

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Ser um diretor é indagar a todo momento se seu filme se faz necessário. É estar sempre se questionando sobre o que realmente está sendo feito durante todo o processo de criação. É se perguntar se realmente as imagens que estão sendo feitas ali são realmente devidas. Vendo Christine, do Antonio Campos, acabei me permitindo sentir esses pensamentos que são de exclusividade do diretor. Não só por se tratar de uma história que eu já sabia onde iria acabar, nem também pela sensação de curiosidade de como ela iria ser contada, mas simplesmente pela obsessão coletiva que foi criada diante da persona principal. Christine Chubbuck acabou se tornando um dos mitos mais intrigantes da era moderna. O seu suicídio ao vivo se tornou meio que objeto de uma curiosidade mórbida de todos aqueles que sempre quiseram (mentiria quem negar que nunca tivera curiosidade ou até tentou procurar o vídeo na rede) assisti-lo.

Acabou que a conclusão de que as imagens são inexistentes tornou-se uma frustração coletiva e o surgimento desse filme do Campos acaba sendo uma corajosa e ousada necessidade de criar a imagem que todos sempre quiseram ver. O que torna Campos corajoso é querer contar uma história tendo por base um suicídio, sendo isso também o que o torna ousado, se utilizando de escolhas que o fazem a todo momento andar por um caminho de ovos, onde a qualquer momento o controle do seu carro pode cair num precipício.

O mais divertido disso tudo é perceber que tanto faz se Christine é um filme bom ou ruim, ou se o roteiro perde muitas vezes a oportunidade de ficar calado (?). Ele é um filme que está fadado ao ostracismo se for buscar abrigo nos braços do seu público alvo, e longe de ser aclamado por quem desconhece a história e acabar entrando de gaiato no navio.

Como artista de um só sucesso, Christine faz por cima de uma só cena, aquela que todos estavam esperando desde a lida da sinopse na fila do cinema ou anos lendo blogs/fóruns sobre teoria da conspiração. O que poderia ser uma prisão acaba sendo libertador pois as imagens que serão recriadas só aconteceram, ou seja, não existem de verdade, então passarão a existir pela primeira vez.

Campos pode muito bem ser mais um daqueles que estavam compartilhando informações e conversando sobre Chubbuck em fóruns ou em comentários de blogs, um obsessivo tão louco que precisava que as imagens fossem reais, que elas existissem, e então ele decidiu ele mesmo as criar, pois não aguentava perceber que continuava a espera para ver um vídeo que ninguém realmente precisa assistir.

Quadrilha Maldita, de André De Toth

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Logo nos minutos iniciais de Quadrilha Maldita (Day of the Outlaw, 1959)e perguntava porque André De Toth havia escolhido fazer o filme em preto e branco. Não que eu esteja afirmando que isso tenha sido uma escolha dele, pode ser que o estúdio e/ou o financiamento tenha determinado isso, mas gosto de ter a fantasia mental que os diretores são totalmente donos de seus filmes. Esse pensamento talvez tenha vindo por ter tido recentemente uma experiência cinematográfica de um filme seu usando a tecnologia 3D (House of Wax, 1953) que ainda engatinhava da década de 50. Toda sua noção de cores e das profundidades que ela podiam proporcionar me fizeram ficar admirado com seu domínio cinematográfico.

Todo esse questionamento foi em terra logo em seus primeiros 20 minutos quando acontece a primeira reviravolta da trama e acabei entendendo que o preto e branco era para alimentar toda a claustrofobia que a narrativa carrega. Naquele cidade perdida no meio de toda aquela neve não existem cores. Seja de seus moradores como todos daqueles que vão parar naquele fim de mundo. Quando William A. Wellman fez Dominados Pelo Terror (Track of the Cat, 1954) ele disse que queria fazer um filme preto e branco em cores. Mesmo com a ambientação parecida dos dois filmes (western de neve) o que Toth faz aqui é criar um filme onde as cores não precisam existir, na verdade não têm espaço para aparecer. Elas não são bem vindas. Toda a atmosfera sombria da história é enfatizada ao extremo pela fotografa que transforma aquela áurea pessimista que rodeia todos os personagens em uma perspectiva que se aproxima muito do NO FUTURE NO HOPE que os punks iriam levantar na sociedade setentista pós era hippie e pré década perdida da geração X.

Mas é no seu fim, quando o filme abandona todos aqueles que não interessam para focar nos personagens que se impõem a trama, é quando vemos que as personas que existem no universo western carregam dentro de si uma noção de fatalismo que só veríamos ser tão incorporada nos filmes policiais. Os Cowboy e os fora-da-lei esperam uma saída mesmo diante de um futuro inexistente.

O fim para os mais céticos pode acabar sendo um tanto indigesto, mas basta lembrar que estamos falando do western, onde as lendas devem ser publicadas e as verdadeiras histórias acabam sendo esquecidas.

Conclusões de 2016

Gosto de listas. Queria começar com essa afirmação porque muitas vezes falamos que listas não são legais, mas no fundo sentimos e sabemos que estamos mentindo. Escolher por mais doloroso que seja é muito divertido. É uma sensação de arriscar e dar a cara a tapa de uma forma tão intensa que chega a parecer o mesmo sentimento de adrenalina. Fazer listas todos os finais de ano acaba sendo um ritual necessário (pelo menos para mim) por alimentar essa inconsequência de se arriscar sem perder nada com isso. Sempre que faço essa lista acabo finalizando com uma menção honrosa que acaba sendo entregue para a sessão que mais me marcou naquele determinado ano. Esse ano, por mais que tenha tido várias sessões marcantes, não tive nenhuma como tive ano passado com Fantasia e Mad Max no São Luiz, nem no ano que o antecede que entreguei todas as minhas honras para Rocky Horror Picture Show – por incrível que pareça também no São Luiz. A sessão desse ano foi no meu quarto, na madrugada da véspera do ano novo. Sem nenhum luxo, com nenhuma cerimônia. E com a lista do ano já finalizada. Pode não ser o melhor filme do ano, mas todas as suas qualidades o colocam ele facilmente figurando entre por entre os que são melhores que ele. Hell or High Water é um western, se analisado detalhadamente pode ser até adentrar naquilo que Bazin chamou de gênero americano por excelência. Não duvido, mas é com ele que, enfim, entrego minha lista dos melhores filmes que povoaram esse turbulento e decisivo ano:

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  1. O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
  2. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  3. Toni Erdman, de Maren Ade
  4. Academia das Musas, de José Luis Guerín
  5. Hell or High Water, de David Mackenzie
  6. A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha
  7. A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa / Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira
  8. Carol, de Todd Haynes
  9. O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho
  10. A Bruxa, de Robert Eggers / Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler

Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler

vlcsnap-2016-11-28-00h45m07s85A criação da mitologia do oeste americano deve-se exclusivamente para a força que o gênero Faroeste conseguiu alcançar durante toda sua maciça existência. Presente desde os primórdios do cinema, a excelência de narrativa e público que o gênero manteve durante tanto tempo segue até hoje inexplicável para aqueles que tentam compreender o cinema em sua totalidade. Quando surgem filmes de excelência distantes do período de sua febre é notável que a morte do gênero não foi uma mera questão de desgaste.

Com o aparecimento de Bone Tomahawk foram levantadas questões de se ele significava o ressurgimento do gênero nessa era moderna do cinema. Mas se fomos levar em questão que desde a morte significativa do gênero em Hollywood (com o excelente Os Imperdoáveis), o faroeste foi visitado nas suas diversas vertentes, mesmo que em quantidades pouco significativas. O Ozploitation pode ser visto como um gênero que surgiu ainda que no fim do faroeste revisionista com obras como Mad Max e que se manteve durante décadas seguintes sempre entregando obras notáveis.

Como ocorreu com Dead Man (onde Jarmusch se aproveitou do gênero para criar um subgênero ao seu deleite), o que vemos em Bone Tomahawk é o gênero sendo corrompido de seu formato clássico para se aventurar em linhas não muito convencionais de se misturar com ele. O faroeste cede o espaço para o terror psicológico, abraça o gore e não teme de negar a trilha sonora, se utilizando apenas de sons ambientes.

Toda a aventura que Zahler leva o telespectador usando o Faroeste como pontapé inicial é prazerosa quando ele não se encabula de se utilizar (e as vezes até avacalhar) dos arquétipos do gênero. Temos a cidadezinha onde todas as pessoas relevantes são conhecidas (e não demora muito para que quem tá assistindo também conheça); temos o lugar em comum onde as tramas principais ocorrem e se desenvolvem (o bar e mais tarde a delegacia); temos o xerife linha dura, o bêbado falastrão, o veterano de guerra, o cowboy clássico, o médico, o forasteiro que carrega a causa e efeito para que a trama se torne real. Está tudo ali, pronto para que nos permitamos adentrar mesmo sem saber o que realmente vamos encontrar.

É ai que surge o horror, quando percebemos que algo foge do habitual a se presenciado nesse tipo de gênero. Os nativos canibais além de carregar toda a mitologia que estamos sedentos para descobrir, levam em sua onipresença toda a tensão que a qualquer momento parece que vai explodir na tela. Até que explode e o extracampo se desenvolve dentro do campo, e nos deparamos com algo novo, incrível e envolvente.

Bone Tomahawk pode não ser um western por excelência, suas falhas são tão transparentes quanto suas qualidades. Mas ele acaba sendo um western por excelência por não ser perfeito. Não podemos nos esquecer que os grandes westerns feitos foram num sistema que hoje chamamos de cinema B.

E os defeitos desse tipo de cinema é o que o torna tão atraente.

Sexo, Mentiras e Videotape

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O poder da retrospectiva é uma ferramente interessante para quem se importa ou involuntariamente acaba refletindo sobre o cinema e os caminhos que a linguagem acaba sempre percorrendo para tentar se reinventar. Ver hoje pela primeira vez (em plena globalização, no ano de 2016) o debute de Steven Soderbergh para o cinema é interessante se colocarmos em panorama o contexto que ele estava inserido no ano de seu lançamento, em 1989. O cinema independente americano acabava de perder seu maior expoente, John Cassavetes, que por si só já poderia ser considerado o fim de um ciclo de rompimentos de barreiras do ‘fazer cinema’ em Hollywood que acontecia desde 1959, quando Cassavetes lançou seu primeiro longa e foi responsável pelo período mais frutífero do cinema independente americano. O ultimo grande filme de Cassavetes, Amantes, foi lançado 5 anos antes, em 1984, e Sexo, Mentiras e Videotapes ganhar a palma de ouro em Cannes no ano da morte do pai do cinema independente americano pode simbolizar a passagem de bastão para que Soderbergh pegasse as rédias do movimento e desse um rumo para ele. Infelizmente não foi isso que aconteceu e logo nas produções posteriores Soderbergh cambaleou para as grandes produções e abandonou o cinema independente que deu o gerou. Agora, desacreditado do cinema, se voltou para as produções televisivas e alimenta a alcunha de “ex-cineasta”. Enquanto o movimento independente americano se manteve vivo durante todos esses anos – mesmo que sempre beirando ao ostracismo – em nomes como Jim Jarmusch ou em pequenos movimentos jovens como o Mumblecore, oriundo do começo do novo milênio, responsável por nomes que até hoje mostram que o cinema independente sempre vai existir enquanto pessoais quiserem dizer algo significativo sem que seja preciso vender a alma.

Pontypool, de Bruce McDonald

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Está comprovado que a palavra Digital é a mais complexa que existe. Tão incompreensível na mesma proporção que é completa. Já olharam ela no dicionário? Até quando ela foge do seu conceito literário e tenta se traduzir em imagens sua compreensão segue sem sentido aparente. Ela carrega o futuro dentro de sua sintaxe. É possível ver o que nos reserva quando ela é realmente compreendida. Uma nova era toda dentro de apenas sete letras. Uma máquina binária de perfeição orquestral. Essa palavra precisa ser dita e todos possam compreender que no futuro só existirá os números.

(Última gravação do pesquisador linguista José da Silva antes de ser encontrado morto em circunstâncias misteriosas)