Le Livre d’image, de Jean-Luc Godard

Le Livre d'image

Quando Luiz Pretti fez Cineasta Bom É Cineasta Morto ele pode não ter percebido, mas sua contribuição foi para o graal das frases de cinema que marcam logo na primeira impressão. Não é de todo cabimento sua afirmação, lógico, mas todos ao de concordar como é sofrível o reconhecimento de uma arte tão espaçada como o cinema.

Não devemos acreditar em nada que não seja o que os filmes nos diz, mas pensar em Godard remete diretamente a um pensamento sádico e ao mesmo tempo sem escapatória: estariam todos aqueles que vão ver seus trabalhos recentes com o receio daquele ser o seu último?

Godard se tornou um questionador e dizer que seus filmes são fáceis e/ou agradáveis de se ver é mentira. Desde que ele abraçou seu lado rebelde seus filmes deixaram de ser filmes e se tornaram ensaios de si mesmos.

Longe de mim querer falar que os filmes do mestre francês são enfadonhos e preguiçosos. Seus filmes são tão instigantes no que propõem quanto cansativos de se assistir, mas um cansaço que durante a projeção mostra ser necessário para onde ele quer nos levar.

Não tem muito o que ser dito sobre Le Livre d’image, é um verdadeiro filme que só basta ser assistido.

Mas acredito que temos muito a falar sobre Godard e o novo cinema-edição que ele talvez não criou mas claramente aperfeiçoou.

Não sei se ele concordaria com a frase do título do filme do Pretti, mas com certeza a frase célebre do Peter Bogdanovich (“Todos os bons filmes já foram feitos”) ele deve ter dito em alguma conversa de bar.

Mas tanto Pretti quanto Bogdanovich foram infelizes nas suas interessantes observações, eles não contavam com Godard vivo e fazendo filmes.

Godard é o cinema.

Godard é o cinema?

A frase é dele e tenho certeza que ele continua achando que Nicholas Ray é o cinema. Mas foda-se, Godard. Tu continua foda.

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Nasce uma Estrela (ou o Renascimento de um Clássico)

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Pensar o cinema como literatura pode parecer um exercício que possa pedir para nós telespectadores um pouco de esforço. Mas pensar de verdade o roteiro o torna um livro. E temos que ter a consciência que enredos livros se repetem mais que o normal e em nenhum momento isso é algo que deva denegri-los.

Dos escritores modernos do cinema, William A. Wellman pode ser visto como um dos medalhões tendo em vista de praticamente todos seus grandes filmes se tornaram verdadeiros guias para entender diversos gêneros do cinema.

Toda essa necessidade de revisitar sua obra é justificável quando vemos que a primeira história de amor verdadeiro do cinema foi dele e é um amor que se resume no destrutivo. Os meios podem ser diversos, de acordo com suas eras, mas os fins sempre vão ser iguais, não existe uma fuga para isso.

Depois de duas refilmagens, não assustou ninguém quando foi notificado uma nova refilmagem e o nome de Lady Gaga incluído nisso tudo. O tempo dirá se Lady Gaga se iguala com Judy Garland ou Barbra Streisand, mas o que ela se assemelha é a intensidade de se misturar com sua contemporaneidade.

Engraçado que pela história ser tão clássica (seria a Star Is Born a Jornada do Herói de Joseph Campbell dos filmes de amor do cinema?) sua execução sempre acaba por agradar diante de tantos desagrados. Também sendo unânimes indiferentes comparações, elas são frutos genuínos de suas épocas.

Mas já comparando, a forma que Bradley dirige as cenas viscerais remete ao classicismo melodramático preciso do que o filme de 37 faz de forma única, assim como Lady Gaga preenche a tela da mesma forma hipnótica de que só Garland conseguia fazer sem nunca perder a pose.

Como todos ao de concordar que diferente das duas primeiras versões, a criticada de 76 conversa com sua época de forma maravilhosa como esse remake mais novo.

Mesmo com Bradley praticamente seguindo uma cartilha na direção – pecando muito no terceiro ato -, fiquei curioso para ver um A Star is Born dirigido por Clint Eastwood. Talvez tivéssemos a despedida mais épica de um gênero como foi Os Imperdoáveis.

Mas o amor é algo que mesmo morto nunca parece realmente morrer.

Clint sabe das coisas.

A Forma da Água, de Guillermo Del Toro

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Existe uma teoria dentro do imaginário coletivo no qual diz que todo músico se prepara durante toda sua vida para o seu primeiro disco e o grande desafio de sua carreira na verdade se encontra no lançamento do seu próximo trabalho.

Quando colocamos essa perspectiva no cinema ela se quebra no primeiro momento quando se percebe que o fazer filmes – apesar de todas as influências que os cineastas carregam dos filmes vistos desde sua infância até o começo de suas carreiras – é uma arte progressiva, que evolui na estância dos caminhos que o autor insiste em seguir, e que nem muitas vezes é algo consciente.

Chamar A Forma da Água de um misto de influências e referências poderia ser visto tanto como um elogio quanto como uma crítica. O que Del Toro faz aqui é entregar um filme que mergulha (peço perdão pelo trocadilho) em referências. Mas o que poderia ser sua ruína acaba que se tornando o seu triunfo. A mescla de influências que a obra do mexicano faz acaba se tornando o charme quando percebemos que ele não as usa para inflar o seu ego, mas da forma que ele respeita a história propôs a contar, usando tudo aquilo que ele consumiu desde sua juventude apenas para intensificar o que ele deseja mostrar.

Diferente de alguns diretores que podemos chamar de seus contemporâneos, as influências que permeiam a obra do Del Toro não parecem ser o motivo do seu desgaste. Isso poderia ficar ao cargo de sua notável inocência que parece penetrar em sua direção, mas por sorte consegue se equilibrar entre o preciso e o exagerado.

No entanto, diferente de todas as suas obras anteriores, A Forma da Água se torna um filme notável quando fica claro que o diretor não está diretamente preocupado em entreter o telespectador, e sim contar a história. Não que o papel do cineasta seja de sempre incomodar aqueles que o assistem (Godard discordaria disso, porem é um debate para outro momento), mas os filmes se tornam mais filmes quando o seu autor não está mais preocupado em satisfazer o público do que ser honesto a aquilo que se quer contar.

Se temos o fan service em Círculo de Fogo; a masturbação pessoal em A Colina Escarlate; e a necessidade de ser alegórico em O Labirinto do Fauno; em A Forma da Água encontramos um diretor que ao mesmo tempo que está empenhado naquilo que está fazendo, se sente despreocupado do que isso possa significar àqueles que o assistem.

Ele é responsável por aquilo que fez não pelo que os outros vão entender.

Belo filme.

Conclusões de 2017

2017 foi um ano de dúvidas. Seja sobre o futuro, sobre o agora ou sobre o cinema. Ao mesmo tempo que o medo parece ter se instaurado ao nosso redor, o pessimismo e o niilismo foram abraçados por tudo que foi feito em relação a arte. Sem muitas delongas, apresento aqui os filmes que acredito terem sido os melhores desse ano:

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  1. Era Uma Vez Brasilia, de Adirley Queirós
  2. Z – A Cidade Perdida, de James Gray
  3. Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans
  4. Bom Comportamento, de Ben Safdie e Josh Safdie
  5. Paterson, de Jim Jarmusch
  6. Personal Shopper, de Olivier Assayas
  7. Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-Soo
  8. Corra!, de Jordan Peele / Fragmentado, de M. Night Shyamalan
  9. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan
  10. Mulheres do Século 20, de Mike Mills / Certas Mulheres, de Kelly Reichardt

***

Criada para ser concorrente de frente com o cinema, a televisão demorou para se justificar como objeto de arte, com linguagem própria. Apenas no fim do século XX, quase 50 anos depois de sua criação, que a televisão encontrou suas obras definitivas com Seinfeld e Twin Peaks. Essa segunda teve seu fim prematuro e agora voltou mostrando que Lynch e Frost têm consciência do que é a linguagem televisiva e sem dever nada ao cinema. Não é filme, é televisão, mas o retorno de Twin Peaks foi um dos melhores acontecimentos audiovisuais desse ano.

Twin Peaks: The Return, de David Lynch e Mark Frost

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Sobre Low In High School, Morrissey, Ann Druyan e Recife

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A audição de um disco, pelo menos para mim, se justifica apenas quando enquanto o escuta você também está interagindo com a cidade. Seja andando pelas ruas, dirigindo um carro ou até mesmo dentro de um coletivo, as músicas, o conceito, as melodias e as letras parecem só fazer sentido quando se fundem com a cidade.

Por mais que não seja a primeira audição, ouvir um disco em movimento é sempre uma experiência única e exclusiva. Os passos, mesmo que precisos e direcionados, nunca serão capaz de prever o que vai encontrar pelo caminho. Nossos olhos estão dispostos a ver o que nem sabiam que veriam. Nós estamos abertos a encontros casuais, de desconhecidos e pessoas que acreditamos amar. Tudo isso será ambientado pelas músicas que estão tocando no fone. Elas vão ganhar significado. Memórias.

Não que ouvir Morrissey não seja repleto de significados. Além de ter uma música mutante (que sempre muda diante de uma nova audição), o leque de possibilidades que suas canções carregam acaba tornando a experiência de ouvi-lo pela cidade algo transcendental.

Me pego voltando de uma visita de uma pessoa agradável, horário de pico, no trânsito infernal que só Recife parece proporcionar para seus moradores. Mas quando se tem um fone de ouvido, bateria carregada e as músicas certas nada vai te abalar.

O ônibus, por incrível que pareça, não estava lotado. Aquele ambiente agradável parecia contrapor o caos que se encontrava na pista. O disco novo do Moz (Low in High School) estava ainda na sua terceira faixa quando decidi acabar de ler o livro que estava relendo essa semana. Mas o engraçado que o fim desse livro não era escrito pelo autor e sim para o autor. O livro em questão é o Bilhões e Bilhões do Carl Sagan e a parte que faltava ler era o Epílogo que sua mulher, Ann Druyan, fez para o seu marido que havia morrido. Sabia o que ia encontrar ali, campo perigoso, mas mesmo assim resolvi arriscar. Eis que chega na faixa de número 4 do disco (Home is a Question Mark) e me assusto pela forma que o os trechos mórbidos da despedida para o Sagan e a poesia musical do Moz se completam. Os gritos lamuriados dele entendem a dor que ela estava passando ao ver seu marido padecer numa cama depois de tanto batalhar. O choro parecia inevitável, até que a música acaba na mesma hora que o ônibus freia inesperadamente. As portas se abrem e dois policiais entram. Quem é preto em Recife sabe o que isso significa. O perigo eminente mesmo quando não se carrega nenhum tipo de culpa toma conta de mim. Paro de ler o livro e enquanto a música número 5 (Spent the day in bed) toca loucamente os policiais procuram algo inexistente no ônibus e acabam que só deixando medo entre os presentes.

A tensão passa, a música muda e tento voltar a ler o livro. Até que eu recomponha minha atenção I Bury The Living parece fazer sentido enquanto olho pela janela do ônibus. As ruas iluminadas para esconder a feiura charmosa que alguns trechos da cidade possui e aqueles carros que lotam as ruas mas em vez de entregar modernidade parecem só trazer atraso social.

Quando In Your Lap começa eu já estou acabando o livro. Druyan se delicia tristemente em memórias que nós compreendemos a dor. Chego no fim se acreditar naquilo que li e a faixa já é outra, um tango mórbido, muito preciso para se ouvir depois de um relato tão triste. Guardo o livro e volto a olhar para a janela, tentar ver as pessoas, tentar entender o que as motiva a andar sempre para os mesmos lugares todos os dias.

Desço do ônibus um pouco antes do meu destino. Decidi andar e terminar o disco. All the Young People Must Fall in Love começa e ela parece transformar Recife na verdadeira cidade luz. É a verticalização junto com uma tradição que luta diariamente para sobreviver. São as pessoas que trocando seu suor sagrado por um pouco de dignidade para permanecerem vivos.

Acredito que todo recifense tem uma relação de amor e ódio por essa cidade. O amor vem de tudo de bom que Recife parece poder nos proporcionar e nos proporciona, mas o ódio vem daqueles que têm o poder de melhorar e não se interessam por isso. São com esses pensamentos que passo ouvindo When You Open Your Legs e chego na potente Who Will Protect us From the Police? e me pergunto o mesmo. Estão fardados em todas as esquinas com suas mentes carregadas de estereótipos preconceituosos, todo o seu fascismo e racismo estampado como tatuagem em seus cassetetes e suas armas penduradas na cintura.

Uma cidade tão bela, com tanto peso histórico, presa numa repressão racial que assusta até aqueles que são brancos e vêem tudo pela sacada de seus prédios rodeados de seguranças e cercas elétricas.

Morrissey grita Venezuela no fim dessa música, mas se fosse Brazil teria o mesmo impacto.

E por fim, chego na rua da minha casa embalado pela Israel, que finaliza o disco. Uma música que avulsa não diz muito, mas dentro do contexto do disco parece ter algum significado: uma esperança enferrujada.

É abrindo a porta e ouvindo Israel que me pergunto se Morrissey já leu a declaração póstuma que Ann fez para o seu marido. Assim como também pergunto se mais alguém estava ouvindo esse disco andando por Recife. Não sei, acredito que nunca saberei. Só sei que essa não será a ultima vez que tentarei achar novos significados para ele.

Mãe! (Ou Para Que Serve O Cinema Agora?)

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Alguns cineastas compreendem o impacto que o cinema causou logo no seu surgimento. A sessão da Chegada do Trem a Estação é até hoje a lenda mais significativa da sétima arte. Nela não só está o nascimento do cinema como o seu aspecto que justifica a sua existência: o poder de imersão.

Mesmo passando por fases e se transmutando constantemente em sua narrativa, o fazer cinema sempre esteve relacionado em fazer o público imergir da cadeira e se aventurar no que a tela está entregando.

Assistir Mãe!, o novo objeto de fetiche do Darren Aronofsky, por mais que questionável, é um verdadeiro ato de imersão. Sua trama misteriosa atrelada a uma narrativa absurda leva o telespectador do céu ao inferno em simples estralar dos dedos.

Mas para que serve o cinema agora?

Mãe! levanta a reflexão de que se realmente vale tudo para se ter uma boa experiência no cinema. Não que tenhamos a visão de espetáculo que a sétima arte abusou em outrora, nem a mesma qualidade de filmes com a propensão de se tornarem clássicos em um futuro distante, mas obras como essa do Aronofsky, que se vendem com a alcunha de filmes “para poucos” ou de “arte” mostram a fragilidade do cenário atual do cinema para que nos submetamos a qualquer coisa que nos entregam.

E ao comparar Mãe! aos filmes que tanto a obra quanto a crítica referenciam é que vemos a sua fragilidade. Em O Bebê de Rosemary também estamos na mesma posição que a protagonista e acabamos entregues ao que o sadismo do diretor quiser nos levar. E O Iluminado o absurdo narrativo também acaba fazendo o público ficar imerso até os créditos surgirem. Mas o que diferem eles de Darren Aronofsky é que tanto Polanski quanto Kubrick compreendem e respeitam o espetáculo cinematográfico para saber que até no cinema a gratuidade tem um preço a ser pago.

Quando chegamos ao fim de Dom Casmurro é de imediato a discussão se Bentinho foi traído ou não por Capitu. Machado de Assis sabia o que estava fazendo, aonde tudo isso iria levar e guardou a verdade consigo até o túmulo. Infelizmente não se pode dizer o mesmo sobre Darren Aronofsky e seu Mãe!…

Kate Plays Christine, de Robert Greene

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Assistir Kate Plays Christine depois de ter visto Christine dirigido por Antônio de Campos acaba que sendo uma revisita um tanto que inusitado.

Pode parecer impossível não comparar as duas obras, mas acaba ficando claro os diferentes caminhos que os dois diretores querem seguir. Enquanto Campos simplesmente tenta recriar o desnecessário, Robert Greene está em busca de compreender o que levou a jornalista a cometer tal ato.

A beleza de Christine está na possibilidade do telespectador (sem esquecer que o público alvo de ambos os filmes estão atrás de uma mesma coisa) de criar uma visão de um mito, já Kate Plays Christine encanta pela busca da fidelidade, de um retrato que se assemelhe a realidade, sem soar caricato. Longe de estar afirmando que a interpretação de Rebecca Hall falha quanto retrata Chubbuck, sua atuação não só carrega o filme como acaba que legitimando a sua produção. E Kate não fica atrás quando busca não só imagens da jornalista como também em tentar compreender seu ato.

A questão é que ambas as obras se baseiam em uma premissa mórbida e que se pararmos para pensar não deveriam ter sido feitas, o que faz com que os filmes se destaquem por conseguir sair da zona de risco e entregar obras que se justifiquem por completo, mesmo que pelos motivos que podem parecer errados para alguns.

Mas é no fim que as obras se distanciam. A retratação do suicídio de Chubbuck em Christine tem o simples papel de entregar aquilo que todos querem, mas sem restringir ou passar a mão na cabeça do telespectador, enquanto que a própria Kate antes de gravar a cena derradeira se questiona se aquilo é necessário e logo percebe que a culpa daquilo tudo é de quem tá assistindo e não mede esforços para quebrar a quarta parede para nos xingar e nos fazer perceber o quão sádicos e patéticos somos.

Assim como Christine, Kate Plays Christine é um filme baseado em um vídeo que ninguém realmente precisa ver, mas acreditamos que sim. E não é por acaso que a arma é inúmeras vezes apontadas para a câmera (mesmo que algumas vezes pareça ser acidental). Aquele tiro ao vivo na cabeça errou o alvo.